NOTAS DOS
COORDENADORES DA EDIÇÃO
A ordem de publicação dos trabalhos dos sócios efetivos obedeceu à sequência alfabética dos nomes dos autores. Em seguida, foram ordenados os trabalhos dos sócios correspondentes e convidados;
A Revista não se responsabiliza por conceitos e declarações expedidos em artigos publicados, nem por eventuais equívocos de linguagem nela contidos.
A revisão dos disquetes originais foi feita pelos próprios autores dos artigos publicados.
FINS DO IHGMC
Art. 2º - O IHGMC tem como finalidade a promoção de estudos e a difusão de conhecimentos de história, geografia e ciências afins, do município de Montes Claros e da região Norte de Minas, assim como o fomento da cultura, a defesa e a conservação do patrimônio histórico, artístico e cultural.
E A LUTA CONTINUA
A fundação, em dezembro de 2006, do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, sob a orientação e patrocínio do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, foi uma iniciativa de absoluta seriedade para fixar o conhecimento e a cultura de toda a região norte-mineira. Quadro associativo fixado em cem titulares, com o preenchimento, à época, de oitenta nomes dos mais expressivos da pesquisa, do magistério, do jornalismo e das letras, teve desde o começo um pleno reconhecimento de todos os segmentos da sociedade, autoridades e intelectuais. Os cem nomes dos patronos – árduo trabalho do escritor Haroldo Lívio de Oliveira e meu, aprovados pela equipe de fundação – garantem a perpetuidade dos mais nobres nomes da história regional, todos mais do que expressivos e merecedores de reconhecimento.
Nosso trabalho nestes quase oito anos tem sido o mais sério e mais respeitável, mais produtivo e mais legítimo em qualidade. A História e a Geografia nunca foram tão bem sustentadas, tamanha a responsabilidade de nosso trato em cada reunião, solenidade ou representação juntos às instituições regionais e nacionais. Só a publicação de mais de duas mil páginas em onze livros/revistas, expressiva parte dos textos com atendimento às normas oficiais, já representa uma garantia de valor e de mérito. Os dois coordenadores – Escritores Dário
Teixeira Cotrim e Itamaury Teles Oliveira, marca da competência e
da responsabilidade - têm sido a nossa melhor garantia em todos os
sentidos.
A partir do número nove, nossa Revista teve significativas mudanças
nas capas com fotografias de antigas edificações, muitas das
quais só existentes na memória dos que Deus permitiu viver mais,
muitos com idade além dos setenta e oito anos. Mesmo não sendo
nosso objetivo estatutário assegurar a existência e permanência de prédios
considerados históricos – função legal e exclusiva do Patrimônio
Histórico e Cultural de Montes Claros – cumprimos a nossa parte, divulgando
e ressaltando a necessidade de preservação. Das edificações
mostradas nas três últimas capas, passamos, agora, a outros gêneros de
imagens também importantes e marcantes para as lembranças atuais
e futuras.
Nossos mais fraternos abraços a confrades e leitores, que sempre
nos honraram com as suas respeitosas palavras de incentivo. O
merecimento não é só de nossa Instituição, mas todos os montes-clarenses
e norte-mineiros.
Montes Claros, junho de 2014.
Wanderlino Arruda – Presidente do IHGMC
Reunião de Posse de Wanderlino Arruda, em janeiro de 2014, no Elos Clube de Montes
Claros. Em pé: Maria do Carmo, Amelina, Marilene Tófolo, Geralda Magela, Zoraide
Guerra, Virgínia, Inês Carlos, Arnaldo Bezerra, Lázaro Sena e Janete. Sentados: José
Ferreira, Dário e Júlia Cotrim, Olimpia, Wanderlino Arruda, Itamaury, Yvonne Silveira
e Haroldo Lívio.
JANEIRO-2014 - Em pé: Dário Cotrim, José Ferreira, Geralda Magela, Luiz Giovani,
Maria Aparecida, José Ponciano, Expedito Veloso, Maria do Carmo, Felipe Gabrich,
Wanderlino Arruda, Aderbal Esteves, Téo Azevedo e Itamaury Teles. Sentados: Vírginia,
Palmyra, Marilene Tófolo, Edwirges, Yvonne Oliveira e Lola Chaves.
FEVEREIRO-2014 - Em pé: Juvenal Caldeira, Manoel Messias, Denilson, Maria
Aparecida, Felicidade Patrocínio, Lázaro Sena, Lúcia Becatini, Maria Ângela, Felipe
Gabrich, José Pociano, Itamaury Teles e Maria do Carmo. Sentados: Dário Cotrim,
Palmyra, Edwirges, José Ferreira e Mara Narciso.
MARÇO-2014 - Em pé: Manoel Messias, Aderbal Esteves, Denilson, Maria Luiza,
Marilene Tófolo, Marta Verônica, Felipe Gabrich, Lázaro Sena, Mara Narciso e Vírginia.
Sentados: Dário Cotrim, Lola Chaves, Edwirges, Palmyra e Maria do Carmo.
ABRIL-2014 – Em pé: Mara Narciso, Manoel Messias, Lúcia Becattini, Aderbal Esteves,
Lázaro Sena, Juvenal Caldeira, Maria Aparecida, Maria Ângela, Denilson, Lola
Chaves e Itamaury Teles. Sentados: Marta Verônica, Dário Cotrim, Palmyra, José Ferreira,
Wanderlino Arruda, Téo Azevedo e Haroldo Lívio
MAIO-2014 – Em pé: Virgínia, Dário Cotrim, Maria Aparecida, Expedito Veloso,
Luiz Giovani, Marilene Tófolo, Felipe Gabrich, Ivana Ferrante, Fabiano, Geralda
Magela, Juvenal Caldeira, Haroldo Lívio, Mara Narciso, Lázaro Sena, Felicidade Patrocínio,
José Ferreira. Sentados: Irani Antunes, Palmyra, Lola Chaves, Maria Ângela,
Edwirges, Wanderlino Arruda, Daniel Antunes Junior e Hélio de Morais.
Esteve visitando o nosso IHGMC o
confrade Daniel Antunes Junior. Ele
é sócio correspondente do IHGMC e
sócio efetivo do Instituto Histórico e
Geográfico de Minas Gerais. Filho da
cidade de Espinosa, já escreveu vários
livros, em destaque, Lençóis do Rio
Verde – Crônicas do meu Sertão.
NOTICIANDO
É criada a Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas, em Montes Claros, que tem como presidente instalador o confrade Wanderlino Arruda. Ainda participam desta entidade os nossos companheiros do IHGMC: Dário Cotrim, Itamaury Teles, José Geraldo de Freitas Drumont, José Ponciano, Manoel Messias Oliveira. Pedro de Oliveira e Tarcisio Iran Rêgo.
LIVRO: A DEUSA DAS LETRAS – Dário Teixeira Cotrim
Lançamento do livro “A Deusa das Letras”, no Elos Clube de Montes Claros com a parceria da Academia Montesclarense de Letras e da Academia Feminina de Letras de Montes Claros. Dário Cotrim, o organizador do livro, agradecendo o apoio dos confrades e confreiras. Formação da Mesa de Honra: Humberto Souto, Filomena, Manoel Messias, Petrônio Braz, Evany Calabria, Wanderlino Arruda, Yvonne Silveira, Nilza Mourão, Carlos Pimenta, Ana Valda e Athos Avelino.
LIVRO: ALGUMA LITERATURA – João Caetano Canela
Aconteceu no Automóvel Clube de Montes Claros, o lançamento do livro de crônicas
“Alguma Literatura - Crônicas”, do acadêmico João Caetano Canela. A nossa confreira
Yvonne de Oliveira Silveira presidiu a sessão solene em nome da Academia Montesclarense
de Letras.
LIVRO: UM DIA COMO QUALQUER OUTRO – Fernando Yanmar Narcisio
No Espaço Cultural de Artes de Felicidade Patrocínio aconteceu o lançamento do livro
“Um Dia Como Qualquer Outro”, do jovem Fernando Yanmar Narciso. Aqui a (na
foto) sua mãe Mara Narciso fazendo a apresentação do autor. A Mesa de Honra estava
formada por. Felicidade Patrocínio, Mara Narciso, Yvonne Silveira, Fernando Yanmar,
Dário Cotrim, Patrônio Braz e Wanderlino Arruda
LIVRO: MÃOS AO SOL – Edson Andrade
Foi lançado no Elos Clube de Montes Claros o livro Mãos ao Sol, do acadêmico Edson
Andrade. A Mesa de Honra estava formada com as seguintes autoridades: Dr. Silveira
(Presidente da Câmara), Dário Cotrim, Wanderlino Arruda, Yvonne Silveira, Edson
Andrade, Élen Jackeline, Maria Luiza e Itamaury Teles.
LIVRO: HISTÓRIA DO 10º BATALHÃO DA POLÍCIA MILITAR
Lázaro Francisco Sena
Banda de Música do 10º Batalhão da Polícia Militar abrilhantando o lançamento do
livro do Cel Lázaro Francisco Sena, no Colégio Tiradentes de Montes Claros.
EM GUANAMBÍ - BAHIA
LIVRO: UMA LAGOA NAS TRILHAS DAS TROPAS
Terezinha Teixeira Santos
Com a presença do prefeito Charles Fernandes, vereadores, amigos e familiares, a escritora
Terezinha Teixeira Santos lançou no Auditório Lino Teixeira, em Guanambi, o seu
livro “Uma Lagoa nas Trilhas das Tropas”. Esteve presente, representando a IHGMC, o
acadêmico Dário Teixeira Cotrim.
Dário Teixeira Cotrim
e sua esposa Júlia presentes
no lançamento
do livro “Uma Lagoa
nas Trilhas das Tropas”,
da professora
Terezinha Teixeira
Santos.
O ARRAIAL DE PORTEIRAS NA
BARRA DO GUAICUÍ
Dário Teixeira Cotrim
Cadeira N. 93
Patrono: Simeão Ribeiro Pires
O arraial de Porteiras está a uma distância de meia légua da Barra do Guaicuí, onde está edificada a majestosa capela do Senhor de Matozinhos ou a capela da Gameleira. Foi o arraial de Porteiras o refugio dos barranqueiros da febre das “águas podres”, que dizimava a população nas vazantes da confluência dos rios São Francisco e o rio das Velhas. O arraial de Porteiras recebeu o padre Antônio Corvelo de Ávila e uma boa parte da população ribeirinha do Velho Chico.
Quem foi o padre Antônio Corvelo de Ávila? Ele era filho de legitimo do capitão Jorge Martins de Oliveira e de sua mulher, dona Maria Ávila Pacheco. No seu testamento nós encontramos os seguintes dizeres sobre a sua origem. Então disse ele que era “natural do Rio Real, Vila de Freguesia de Nossa Senhora da Abadia, Arcebispado da Bahia (...) e que foi batizado na Igreja de Nossa Senhora do Monte do Concelho do Rio Real”.
Conforme nos ensina o ilustre Monsenhor Rolim, nas suas pesquisas, o padre Antônio Corvelo de Ávila veio da província da Bahia,como vigário colado de Matias Cardoso. Depois, não se sabe o motivo
(1), ele penetrou pelo sertão, subindo o Rio São Francisco, para
alojar-se na antiga Vila de Nossa Senhora do Bom Sucesso e Almas da
Barra do Rio das Velhas (hoje a Barra do Guaicuí). Ali, onde já existia
a lendária capelinha do Senhor do Matozinhos, uma construção em
pedras ainda inacabada (ou a Igreja da Gameleira, tendo em vista a
existência de uma frondosa gameleira impregnada nas suas paredes de
pedras que oferece, aos visitantes, uma paisagem inusitada por força
de sua beleza natural).
Conforme escreveu o pesquisador Miliet de Saint-Adolph, o
arraial da Barra do Guaicuí foi fundado por Manuel do Borba Gato,
no ano de 1679, durante o tempo da bandeira do intrépido colonizador
Fernão Dias Pais. Portanto, quando o padre Corvelo chegou para
a confluência do rio das Velhas com o rio São Francisco, já havia o
antigo arraial de Manga (hoje que é a Barra do Guaicuí) e, também, o
arraial de Porteiras, distantes um do outro de apenas três quilômetros.
Com o advento das doenças das “águas podres”, o padre Corvelo,
com receio da morte, afastou-se da beirada do rio São Francisco
e fixou-se como vigário colado numa aldeia de menor porte, ali por
perto, transformando-a no arraial de Porteiras. Ali foi construída a
Igreja de Nossa Senhora do Rosário (2). Não obstante a essa construção
em Porteiras, muito tempo antes já havia dado início da criação da
Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso e Almas e a capelinha do
Senhor do Matozinhos, isso na época dos impetuosos bandeirantes
paulistas e baianos.
É interessante salientar que a vila de Porteiras começou a desenvolver-
se com a presença do padre Corvelo e com a sua fuga para
a fazenda de Santo Antônio da Estrada, sesmaria que recebeu por doação
do governador Gomes Freire de Andrade, o arraial de Porteiras
entrou em total decadência. Em vista disso, a construção da Igreja de
Nossa Senhora do Rosário desmoronou-se sem ter sido concluída.
Aliás, hoje da igreja somente dela existe as suas ruínas. O seu adro
serve agora como cemitério, ou o campo santo, público, do lugarejo.
“As adversas condições climáticas, onde reinavam as febres pútridas
e intermitentes, que dizimavam a população, tocaram o vigário
e funcionários para o próximo Arraial das Porteiras, um pouco mais
saudável, mas também infestado” (Nos Tempos do Padre Corvelo –
Geraldo de Souza).
Durante alguns anos vários pesquisadores passaram por essa
extensa região do vale da Barra do Guaicuí. Em 1818, o historiador
Aires de Casal registrava em seu influente livro “Corografia Brasílica“
que o lugar do arraial de Porteiras seria hoje uma das maiores povoações
da então província mineira, se as febres, ali reinantes, não
afugentassem grande parte do povo. Por outro lado, o pesquisador
Johann E. Pohl, que em 1820 também esteve visitando a região, deixando
registrado em documentos as suas interessantes considerações
sobre o que presenciou. Disse ele que o pequeno e acolhedor arraial
do Guaicuí era:
“Ornado com uma Igreja Matriz dedicada a Nossa Senhora
do Bom Sucesso e Almas e uma Capela do Nosso Senhor de Matozinho.
A Igreja do Nosso Senhor do Matozinhos ainda incompleta
cuja construção deve ser continuada, é em grande parte de pedra”.
O historiador baiano Teodoro Fernandes Sampaio, quando esteve
visitando o arraial de Porteiras em 1879, comentou em seu magnífico
livro “O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina” da seguinte
forma:
“Dia 15 de dezembro de 1879. O tempo continuando favorável,
ainda que o termômetro à sombra indicasse 30° antes do
meio dia, nos animamos a sair à terra para fazer uma visita ao arraial
da Porteira, distante cerca de meia légua do nosso ancoradouro.
O arraial conta apenas umas setenta casas e não mais de uma
centena de habitantes. A igreja, como edifício mais importante,
chamou-nos logo a atenção, e fomos, pois, visitá-la. É uma construção
provavelmente do fim do século XVIII. O frontispício dela,que nos disseram ter sido belo, tinha desabado há alguns anos, e
foi então reconstruído ou remendado. Pintaram-no grotescamente.
Desenharam-lhe em meia altura uma fila de peixes azuis e no frontão
representaram uma coroa ladeada por duas figuras de índios,
vestidos à europeia e apontando para ela os componentes arcos retezados.
A obra interior seria, porém, digna de admiração e de todo
apreço pelo lado artístico, se não fora o muito estrago e a péssima
conservação da belíssima arquitetura dos altares. Que belas imagens!
Que formosos lavores na obra de talha! Tudo isto, porém, não
resistirá por muitos anos ainda, tão adiantados e tão irremediáveis
são já os estragos do tempo”.
Na verdade, sentenciou o nosso confrade Simeão Ribeiro Pires,
no seu livro Raízes de Minas, com muita propriedade: “Teodoro tinha
razão”. Hoje, praticamente nada mais resta daquele templo. Pois,
pouco tempo depois tombava melancolicamente a velha e estimada
Igreja de Nossa Senhora do Rosário, do decadente arraial de Porteiras.
Outrossim, numa primeira visita que fizemos ao arraial de Porteiras,
no ano de 1983, na companhia dos amigos Ildeu Braúna e
Luiz Carlos Novaes, ali quase nada mais restava senão umas pequenas
ruínas da sua parede frontal. Passados alguns anos depois, voltamos
lá pela segunda vez, já na companhia do meu concunhado Exupério
Alberone Porto, em 2013. Pois bem, difícil foi localizar os restos de
ruínas da velha Igreja de Nossa Senhora do Rosário, uma vez que hoje
a construção de um muro pré-moldado, em torno da Praça da Igreja
Matriz, transformou o adro suntuoso da velha igreja no Campo Santo
da Comunidade, dificultando, assim, a visão dos seus paredões, em
ruínas por quem por ali passasse.
Nota-se bem que esta Capela do Nosso Senhor do Matozinhos
fica a meia légua do arraial de Porteiras (3). Abandonada pelos fiéis e
pelos padres durante a expulsão dos Jesuítas do Brasil, em 1759, a pequena
capela de pedras, que ainda estava inacabada, ganhou uma bela
gameleira como parasita nas suas robustas paredes de granito, dando lhes uma decoração natural que aos olhos dos visitantes nunca existiu
nada mais bonito e nem nada mais gracioso. Veja, então, o que disse o
ilustre confrade Luiz de Paula Ferreira sobre a gameleira da Igreja do
Senhor de Matozinhos:
Porteiras: Uma comunidade vítima da própria sorte
Capela de Matozinhos - Barra do Guaicuí
“O passarinho comeu as frutinhas da gameleira e depois
pousou no topo da mais alta parede da velha igreja de Pedras e“plantou” a sementinha. O mais ficou por conta da chuva e do
calcário das velhas pedras e da argamassa de rejuntamento. E do
Bom Jesus de Matozinhos, patrono da igreja”. (Momentos. Luiz de
Paula Ferreira. Pág. 43).
Assim, como Porteiras, há por certo outras comunidades que
foram, no passado, de extrema importância para a história da colonização
de Minas Gerais e do Brasil. Em particular as zonas de mineração
que, depois da febre do ouro, a decadência era inevitável para algumas
dessas comunidades. Muitas vilas e povoados viviam em pleno
gozo das riquezas extraídas da terra, mas sempre por tempo limitado.
Ao contrário do que acontecia com as vilas oriundas dos currais de
gado, entretanto, o arraial de Porteiras, conforme conta a história, foi
vítima da própria sorte.
_____________________________________
NOTAS
(1) Acredita-se que a saída do padre Antônio Corvelo de Ávila aconteceu
durante a expulsão dos Jesuítas no Brasil, por ordem do Marquês de
Pombal. Apadrinhado de Manuel Nunes Viana, o padre Corvelo foi
para a região do Morro da Garça e, depois ele criou a Fazenda de
Santo Antônio da Estrada, onde é hoje a cidade de Curvelo.
(2) Consta do livro Memória Viva, História, Lendas Folclore de Guaicuí
– Mário Francisco de Morais, que o nome da igreja Matriz de Porteiras
tinha como padroeira Nossa Senhora do Bom Sucesso, a santa
de devoção de Manuel Nunes Viana. (Pág. 53).
(3) Conforme rezam as tradições do lugar, o nome primitivo do arraial
era Porteira, no singular, haja vista que foi em virtude da existência
de uma pequena porteira no caminho que dava àquela comunidade
que originou esse topônimo. Hoje, ele é pronunciado no plural: Porteiras.
BIBLIOGRAFIA:
1. FERREIRA. Luiz de Paula. Momentos. Belo Horizonte/MG.
Ed. Armazém de Ideias. 2006.
2. MORAIS. Mário Francisco de – Memória Viva, História, Lendas
e Folclore de Guaicuí. Belo Horizonte/MG. Editora e Gráfica
Literatura. 2007.
3. PIRES. Simeão Ribeiro – Raízes de Minas. Montes Claros/MG.
1979.
4. SOUZA, Geraldo de – Nos Tempos do Padre Corvelo. Curvelo/
MG. 1995.
CRÉDITO DAS FOTOGRAFIAS
• Igreja de Porteiras – Exupério Alberone Porto
• Capela de Matozinhos – Luiz de Paula Ferra
O CAMINHO IMAGÉTICO
DE ÂNGELA MARTINS FERREIRA
Felicidade Patrocínio*
Cadeira N. 20
Patrono: Camilo Prates
É do conhecimento de todos que a arte contemporânea adotou nas últimas décadas uma série de práticas artísticas baseadas nos produtos da revolução eletrônica e nas novas possibilidades oferecidas pela tecnologia. Antes disso, a fotografia já iniciara uma mudança de paradigma. Desde a criação do daguerreótipo, o artista percebera que novos caminhos se abririam às artes e foi o que aconteceu. Diante da fotografia, para se salvar, a pintura usou da imaginação e genialidade de seus agentes, inovando suas representações e foi assim que abriram clareiras nos contornos e na cor e nos encantaram. Mesmo assim a fotografia ampliou espaço e já não se discute mais até que ponto ela é ou deixa de ser arte. Este encargo ficou para o olhar interativo do espectador que na arte contemporânea é agente indispensável à completude da obra. Para “colorir” mais ainda o caldeirão das mudanças, fizeram história, as atitudes e palavras de Marcel Duchamp, no início do século XX. A partir dele, o gesto próprio e pessoal do artista pode ser substituído por escolhas, num diálogo do pensamento com o objeto ou com a máquina, aos quais caberá o resultado final da obra de arte.
O trabalho artístico da fotógrafa Ângela Martins Ferreira se enquadra
nesta modalidade. Diante da
BELEZA, do inaudito, sua intuição
estética interage com a máquina, retirando
dela toda a possibilidade de
captação do real oferecido pela natureza
e pelo mundo humano. Mas, o
seu exercício não tem a intenção do
efêmero como na maioria das relações
tecnológicas. Sua arte de fotografar
objetiva a permanência do fenômeno
que se torna único no seu vir a ser.
Ela visa mesmo, o congelamento e
consequente registro daquela realidade
irrepetível. E como a história não
volta atrás, e a descartabilidade geral
vai solapando até as imagens do mundo interior, a arte de ÂNGELA
vem alimentar o mundo da memória. Ao longo dos anos, o seu acervo
foi se agigantando. Podemos dizer que se tornou um precioso banco
de dados, contendo hoje em torno de 74000 fotografias, selecionadas
e organizadas em pastas de acordo com área ou evento. Como a artista
prima pela ordem, o acervo já se encontra catalogado podendo ser
adquirido por instituições pró-memória ou pela prefeitura da cidade
para se instalar de vez o nosso tão esperado Museu da Imagem e do
Som. Sem dúvida este tesouro disponibilizado ao público em geral
seria um régio presente para o montes-clarense. É o que Ângela pretende
e espera.
Eu a conheci no inicio desse trânsito, há vinte anos atrás.
Quando, após décadas de profícuo trabalho na área da educação ela
iniciou o seu périplo em busca de imagens significativas. Desde então,
nada de BELO lhe escapa, não só o belo da natureza, mas de maneira
especial, as manifestações da Cultura. Autodidata, seu aprendizado originou-se no esforço persistente. É ela quem diz: Olhando e aprendendo.
Aprendendo e olhando. Nunca desprezou a foto preto e branca,
reconhece que precisa de mais elaboração ,mais técnica e pode até
ser mais artística. Aprecia muito o trabalho fotográfico dos brasileiros:
Sebastião Salgado e Araquém Alcântara. No entanto optou pela cor,
já que ama a natureza e de modo especial o cerrado, de onde extrai
através de sua câmera, belezas indescritíveis. Seu trabalho que começou
despretensioso, acabou lhe rendendo inúmeras exposições, além
de prêmios em salões de Arte e Fotografia. Dentre os prêmios conquistados,
destaco alguns: o 1º lugar no 2º Concurso Primavera de
Fotografia (1994) do Centro Cultural de Monte Claros, com a foto:“O Entardecer junto aos “Dois Irmãos”, 1º lugar no Concurso: “Cerrado,
Solo Sagrado”(2012) com a foto: “Veredas, oásis do Sertão”
e 1º lugar no Concurso Center Foto e Shopping Center de Montes
Claros com a foto: “Catedral Iluminada”(2002).No Festival de Cultura
e Tradições Mineiras, em Belo Horizonte, (1998) ela recebeu o
3º prêmio com a foto: “Sacada de Minas”(Sabará) e Menção Honrosa
com a foto: ‘Janela da Cidade”(Montes Claros). No Concurso de
Desenhos e Fotografias promovido pelo Hospital Aroldo Tourinho
nas comemorações da Semana Municipal de Aleitamento Materno
recebeu o 3º prêmio com foto “Carinho de Mãe”e mais uma menção
honrosa no Concurso de Fotografia “Desvendando o Verde”.Para
completar, em 1999, sua foto foi selecionada para a capa do catálogo
da Cia Telefônica - TELEMIG (ano 1999).
Foram muitas as exposições realizadas e bem sucedidas. Ainda
hoje são esperadas e visitadas com entusiasmo, devido à beleza e diversidade
dos fenômenos captados pela sua lente, devido ao colorido
esfuziante de suas paisagens e flores, assim como ao inusitado das imagens
do cotidiano, descobertas e valorizadas pelo seu olhar especializado.
Na impossibilidade de citar todas, já que ultrapassam a dezena,
destacaríamos algumas: Em 1998 “Frutos, flores e fauna do Brasil” na
Casa Brasil - Holanda em Rotterdam - Holanda, Exposição “Artes e
Paisagens Europeias” (2002), na Galeria Godofredo Guedes do Centro Cultural de Montes Claros, Exposição “Retratos de Minas (1998)
no 3º Festival de Cultura e Tradições Mineiras em Venda Nova - BH,
Exposição “Luzes” (2000) no Atelier Márcia Prates - Montes Claros,
Exposição “Em contrastes”Montes Claros (1994) na Galeria de Artes
Mário Filho, no Espaço Cultural Banco do Brasil de Montes Claros e
no Espaço Cultural da Prefeitura de Francisco Sá.
Ângela já editou dois livros que são verdadeiras obras de arte e
oferecem prazer o folhear; o primeiro: “Retratos Poéticos”, em parceria
com a escritora - poetisa Karla Celene Campos, o segundo de
sua exclusiva autoria: “Festas de Agosto, Fatos, fotos, e fitas”. Neles,
a artista registra com belas fotos e poemas a cultura da região e todos
os lances das Festas folclóricas dos Catopês, Marujos e Caboclinhos
com seus reinados.
De São João Del Rey onde nasceu, Ângela, ainda criança, transferiu-se para Juiz de Fora onde passou parte da infância e mocidade,
de lá, veio para Montes Claros, onde aportou em 1971. Sua espiritualidade
ampla e profunda aproximou-a das amigas, Irmã Terezinha
de Jesus Correa e Irmã Maria Catarina Verona. Ambas permaneceram
freiras mesmo fora dos conventos, já que preferiram expressar
suas devoções religiosas no cotidiano em meio ao povo. Com elas, a
fotógrafa passou a residir e desde então, começou a trabalhar como
orientadora educacional na periferia do município, transferindo-se
depois para uma escola central, onde prestou benefícios relevantes.
Como voluntária atuou também em programas sociais e espirituais
das pastorais da Igreja católica da cidade. Durante muitos anos lecionou
a disciplina Religião Cristã e depois tornou-se membro efetivo de
uma fraternidade católica denominada: “Irmandade Nossa Senhora
da Santíssima Trindade” que fundou junto às duas amigas citadas e
cuja capela do mesmo nome, edificada ao lado da sua casa, acolhe
religiosos para seus ofícios e católicos para grupos de oração. Ângela
adotou a cidade como sua, e hoje é uma presença conhecida e reconhecida
nos espaços e eventos.
Para não fugir a regra da vocação geral da cidade da arte e da
cultura, absorveu tudo isso e se tornou artista. Seu conceito de arteé bastante kantiano, diz ela: Arte é o que percebido, agrada. Vejo,
contemplo, gosto, expresso e essa expressão vem do íntimo. Impressionada
com a vocação geral do montes-clarense para as artes, concorda
que a cidade é mesmo um celeiro de artistas e este caminhamà frente do povo. Mas, falta a esse povo uma educação mais apurada
para perceber o valor e a beleza genuína dessa arte que brota aqui.
Observa que há muitos artistas plásticos de valor, esperando espaço
e completa: Eu sonho com o dia em que esta cidade promova um
projeto de educação para as artes. Poderia ser uma Semana das Artes,
com exposições onde os artistas expliquem ao público, aos jovens, aos
estudantes o que vem a ser sua arte e como ela se originou. Que ensinem
que a arte pede contemplação. Que a fotografia é também uma
grande arte. E que ensinem o que aprendi no exercício da fotografia,
o despertar da sensibilidade, a paciência, a noção do ângulo e olhar
estético. E que ao andar pela cidade e outros caminhos, comecem a
perceber a beleza que olham e nem percebem.
A sínteses de todo este caminho imagético percorrido, Ângela
apresentou na exposição “Olhar fotográfico de Ângela Martins Ferreira
20 anos de histórias” no período de 27 de Maio a 17 de Junho
na Galeria Godofredo Guedes do Centro Cultural de Montes Claros
Sem dúvida, um grande benefício para a memória da região.
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*Artista plástica (escultora), membro da Academia Feminina de Letras,
do Instituto Histórico e Geográfico e da Associação dos Artistas Plásticos
de Montes Claros.
BECOS DE VIDA
Felipe Gabrich*
Cadeira N. 89
Patrono: Robson Costa
Nada contra os avanços da ciência e da tecnologia. Nem contra o modernismo de formas arquitetônicas abstratas e surrealistas da invencionice da engenharia contemporânea.
Nem contra também os conceitos acadêmicos e desenhos futuristas de urbanistas, ambientalistas ou outros estudiosos da construção civil do terceiro milênio.
Mas - que isso fique bem claro -, ainda há o Beco da Vaca e ruelas antigas perdidas no meio da selva de tijolo e pedra que alargou e encompridou a cidade.
São poucos, mas ainda os há, perdidos no emaranhado de ruas e avenidas da cidade metida a grande.
É que ali ainda mora o romantismo descompromissado e sem sofisticação entre as pessoas.
É lá que se esconde a ingenuidade cabocla da espécie humana.
É lá onde as flores silvestres derramam perfumes aos cântaros,
sem serem vistas.
É lá que o vento corre leve e solto de norte a sul e de leste a oeste
e enche os ares sem cantos e esquinas do cheiro saboroso de liberdade.
É que ali ainda há paredes de adobe de antigas casas seculares
que guardam todos os mistérios de encontros e desencontros de muitas
vidas que por ali passaram.
Por tudo isso, ainda há, também e felizmente, o Beco de Dona
Eva e ruelas antigas encobertas pela selva de concreto que transformou
a província em metrópole.
São poucos esses maravilhosos resquícios da engenharia urbana
do homem de muitas décadas passadas, mas ainda os há nesta província
de claros montes.
É lá que brilham os raios da lua refletidos do passado sobre o
presente.
É lá que se pode ouvir inaudíveis acordes lamuriantes e dolentes
de violas encantadas dedilhando melodias amorosas de eternas serenatas
etéreas.
É lá, onde são mantidos intactos os rastros invisíveis de carros
puxados a bois que serviam de transporte popular e de carga.
É lá, onde habitam as madrugadas os lânguidos e chorosos
aboios mudos de boiadeiros fantasmas.
É lá, onde grandes janelas de madeira de olhos gigantescos e
silenciosos armazenam a imagem de vida e morte de incontáveis impérios
humanos.
Felizmente, ainda há as ruelas de casarões seculares e sombrios
espremidas em meio a construções modernas do progresso, transpirando
e exalando vida por todos os seus poros, mas teimosamente
sendo mortas pela sempre nova engenharia do presente.
Acossadas, cercadas, abafadas, atacadas por todos os flancos por
sobrenaturais e inexplicáveis inimigos do tempo, ainda há ruelas de
casarões seculares e sombrios que não capitulam, não se rendem, não
se entregam.
Entrincheiradas em raízes abstratas de tradições conservadoras,
ousam desafiar os anos e a mão ambiciosa do homem.
E sobrevivem. Misteriosamente, sobrevivem.
Numa época em que, no viver terreno, tudo passa, ainda há as
preciosas reminiscências do passado resistindo heroicamente ao presente
e já com um pé no futuro.
Mas os homens de hoje não ligam para as lembranças, esquecendo-se do que foram ontem: não sabem o que são hoje e têm medo
do futuro.
Sequer imitam essas ruelas de casarões seculares e sombrios,
pois não são capazes de darem conta de que estas existem e sobrevivem
aos ataques implacáveis do inexorável tempo, como diamante
indestrutível, sabendo o que vão ser porque sempre souberam o que
foram.
Por isso mesmo é necessário que se veja o Beco da Vaca, o Beco
de Dona Eva e as ruelas antigas perdidas no meio dessa floresta de
concreto e ferro que agigantou a província e a fez metrópole.
Porque somente nesses becos antigos e bucólicos é possível encontrar
todas as confidências e inconfidências de encontros e desencontros
humanos e reviver as imagens dos anos gravadas por olhos
gigantescos e mudos de grandes janelas de madeira que nos devolvem
a uma estação da vida da qual jamais deveríamos ter saído.
Ao encantado tempo da saudade de nós mesmos...
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* Jornalista
HOMEM DO SÉCULO
Felipe Gabrich*
Cadeira N. 89
Patrono: Robson Costa
Não, não é concurso algum e tampouco um plebiscito.
Nem pesquisa de preferência popular.
Mas é que eu resolvi, por livre deliberação, escolher e votar na personalidade do século vinte de minha cidade. Isto é, eleger ao meu arbítrio a figura humana cuja fotografia eu colocaria em um quadro na parede do meu quarto e a veneraria até o último suspiro como exemplo de vida.
Em todos os setores e em todos os sentidos.
Tarefa difícil, esta, para uma pessoa que teve a rara e feliz oportunidade de conviver com pelo menos uma parte da galeria de homens e mulheres ilustres que desfilaram na passarela humana da sociedade montes-clarense ao longo das últimas décadas do século passado.
Políticos, líderes classistas, desportistas, intelectuais e artistas, escritores, poetas, músicos, seresteiros, boêmios, operários e empresários, cada qual com o seu talento. Mas todos – e muitos – simplesmente maravilhosos.
Homens e mulheres.
Do saudoso doutor Pedro Santos ao inesquecível doutor Mário
Ribeiro. Um a um, eles foram perfilando ao crivo imparcial e isento
do meu juízo.
Até mesmo ilustres personagens que eu conhecera apenas pelo
que ouvira dizer de seus feitos e façanhas. Isso, sem contar a legião de
companheiros e amigos. Alguns, inclusive, ainda vivos.
Bem vivos, graças a Deus.
Ia eu lá me entretendo com a imaginária sessão de júri simulada,
porém, obedecendo fielmente aos rigores acadêmicos dos tribunais,
executando fidedignamente os ofícios de bedel e de juiz, quando,
finalmente, cheguei ao veredicto.
O meu homem do século de Montes Claros, sem direito a recurso
a instâncias superiores da consciência, estava escolhido, após
impiedosa sabatina de uma série de quesitos que a mente formulou
com base em conceitos filosóficos de ética, moral e bons costumes.
O eleito foi o pranteado construtor Chiquinho Guimarães.
Não, não foi apenas a imagem do imponente e majestoso templo
da Catedral de Nossa Senhora Aparecida – sua mais magnífica
obra física - a peça fundamental para a escolha de seu nome como
o homem do século de Montes Claros. Acho mesmo que os montes-clarenses deveriam conhecer mais e melhor a vida de Chiquinho
Guimarães.
Acho não, tenho certeza disso.
Por coroar e fechar com chave de ouro o rosário de suas construções
civis, talvez o templo da Catedral tenha tido mesmo uma certa
influência no resultado do meu julgamento.
Mas não era para menos.
Da mesma forma que a inteligência da mais sofisticada tecnologia
da engenharia moderna demonstra admiração com a incrível metodologia utilizada pelos antigos egípcios para erguerem as famosas
Pirâmides, causa espanto a leigos e doutores que contemplam a
Catedral de Nossa Senhora Aparecida em Montes Claros a indagação
de como foi possível a um construtor autodidata do sertão abrupto e
inculto construir à sua época um templo tão magnífico, sem dispor
dos recursos técnicos, materiais e humanos hoje disponibilizados pela
indústria da construção civil e academias do saber da área.
O fantástico feito, antes da metade do século XX, num tempo
em que os cursos de engenharia civil começavam a ser instalados no
país. Em Montes Claros então, nem pensar. Mas coube ao talento
nato de um operário tupiniquim, habilidoso e diligente, desdobrando-se em aptidões reservadas a arquitetos e calculistas, levantar as paredes
de arrojada peça arquitetônica.
Seria justo, portanto, que apenas esta obra contribuísse para
que Chiquinho Guimarães fosse o meu escolhido para o homem do
século desses claros montes.
Contudo, não foram apenas as construções físicas que pesaram
na sentença do meu juízo.
O homem Chiquinho Guimarães foi grande em tudo, em todas
as atividades humanas, maior ainda do que os fabulosos prédios de
alvenaria aos quais deu vida. Muitas são as lições de conduta humana
que ele imprimiu à sociedade de sua época, principalmente entre as
classes mais humildes e os operários aos quais serviu com dignidade,
trabalho e dedicação. Com humildade, construiu um império de virtudes
que até hoje permanece vivo, como herança, no seio da família
montes-clarense, especialmente entre aqueles que acreditam que a
maior qualidade do ser humano é praticar o bem.
Sem olhar a quem.
Em verdade orgulho-me em confessar que, a despeito de tudo
isso, o meu voto para homem do século de Montes Claros ainda seria
para Chiquinho Guimarães. Por uma simples, mas justificada, questão de sentimentalismo familiar e de coração: afinal de contas, ele era
o meu avô.
Um avô que não pôde escutar o primeiro choro do neto e que
esse neto conheceu e aprendeu a amar pelas estórias que sua mãe contava.
Um entusiasmado viva em memória de Chiquinho Guimarães!
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* Jornalista
EVA BÁRBARA TEIXEIRA
DE CARVALHO
Geralda Magela de Sena Almeida e Sousa
Cadeira N. 34
Patrono: Eva Bárbara Teixeira de Carvalho
A Revolução Mineira começou em Montes Claros. Começou marcada pelo comportamento da mulher mineira, Tiburtina, invulgar figura em lealdade, coragem, bravura e dedicação. (...) A presença daquela senhora me deixara surpreso... Aquela mulher que eu tinha ante meus olhos, em atitude de tal energia, me fazia recordar certos personagens de lendas que eu ouvia quando menino...”
Assis Chateaubriand – 1930
Eva Barbara Teixeira de Carvalho possuía com relevância essa marca da mulher mineira.
Filha de Antônio Teixeira de Carvalho (Padre Teixeira) e Rosa Frutuosa de Lima, sua segunda mulher, nasceu em Santana das Contendas (atual Brasília de Minas), em 1829. Montes-clarense de coração.
Em meados do século passado casou-se com o Professor Serafim Gonçalves Guimarães, que foi vereador da Câmara Municipal de Montes Claros, adotando o nome de Eva Bárbara Teixeira Guimarães.
Tiveram quatro filhos: Gabriela, Pedro, Ezequias e Justino Teixeira
Guimarães.
Mulher. Mineira. Primeira montes-clarense a participar da vida
cultural da cidade, chega ao século XXI com destaques de dinamisno
e participação no progresso de Montes Claros.
Estimulando e atuando nos movimentos em prol do desenvolvimento
da cidade, contribuiu com parcela feminina para que
Montes Claros se transformasse na grande metrópole de hoje.
O tempo de longa duração ao passar vai delineando a história
da civilidade destas mulheres que se fazem presentes e tantas vezes,
com bravura, se destacam nos acontecimentos importantes de suas
comunidades.
Buscando nos caminhos e história de Eva Bárbara, defronta-se
com um véu cultural dos idos de 1830 cobrindo mulheres, certamente
tão valorosas como a de todos os tempos.
Delas pouco se fala pouco se sabe.
Desconhecidas, só o tempo e a atuação das novas mulheres que
chegam conseguem deixar ver as notáveis vidas e contribuições femininas.
Marilia de Dirceu. Bárbara Heliodora. Hipólita Jacinta. Mulheres
das Minas Gerais - mulheres destemidas, atuantes, abnegadas,
mães de família zelosas, cuidadoras domésticas, esposas e companheiras
presentes.
Iracy Novaes, Tiburtina, Eva Bárbara, mulheres montes-clarenses.
Honram a estirpe. Seus brilhos e feitos expandem-se além do
tempo e espaço geográfico.
A mulher que primeiro levantou esses véus e se fez conhecer foi
Dona Tiburtina. Ainda que para isso tivesse que ser como homens de
então: senhora do poder e da autoridade e, como era próprio, senhora
da vida e da morte.
Eva Bárbara Teixeira de Carvalho
Esposa de Dr. João Alves, político influente, ora como mito,
ora lenda, ora realidade foi projetada na história montes-clarense e
teve seu nome enlameado, envolvido em críticas e afirmações contraditórias.
Foi apontada como mandante do tiroteio que marcou de forma
trágica a história politica mineira e montes-clarense, em fevereiro de
1930.
E ao colocar em destaque nacional o nome de Montes Claros
colocou foco, luz e valores nos diferentes papéis e atuações de suas
mulheres em todos os tempos.
Para D. Iracy Novaes não se teve o mesmo olhar. Apenas foi
senhora de si e dos seus passos; ousou sair do cercado doméstico e se
aventurar junto ao povo em um evento político. Foi morta, atingida
por uma bala perdida na tragédia de 1930, da Praça Dr. João Alves.
E nesse tamanho ganhou espaço pelos jornais do país onde o fato foi
noticiado.
A história de Eva Bárbara mistura-se com a destas e de tantas
mulheres brasileiras que não tendo medo de escrevê-la, com atitudes
e fazeres dignos, corajosos, na simplicidade do viver cotidiano, vem
diferenciando e abrindo espaço para as demais.
Eva Bárbara viveu seu tempo com a consciência de que podia.
Foi mulher, cidadã, esposa, mãe, professora. Durante muitos
anos foi professora na cadeira de Instrução Primária. E quando se
aposentou em 1871 continuou a ensinar às moças, que lhe eram confiadas
e que hospedava, os saberes da Educação Moral, Doméstica e
Literária.
Mulher dinâmica, foi incansável batalhadora a favor do progresso
de Montes Claros e a primeira mulher a participar da vida
cultural da cidade.
Cheia de grandes ideais, sonhos, entusiasmo e sendo profunda
admiradora de música, abraçou o sonho antigo da cidade de fundar uma banda. Tomando para si esta incumbência e estimulada por
Dr. Carlos Versiane, pelo vigário Gonçalves Chaves e o Cel. José
Rodrigues Prates, em 1856, mandou buscar em Diamantina (àquela época a cidade mais desenvolvida na região) o mestre de música
Risério Alves Passos que se tornou o primeiro regente da Banda Euterpe
Montes-clarense, então criada.
Banda de Música Euterpe Montes-clarense – 1856
Segundo o historiador Dr. Hermes de Paula, quando a Banda
saiu às ruas pela primeira vez para comemorar a elevação da Vila de
Montes Claros das Formigas para a categoria de Cidade de Montes Claros,
em 1897, a professsora Eva Bárbara Teixeira de Carvalho ia à frente,
feliz, comandando a passeata. O que ocasionou um grande escândalo,
afirma, pois uma mulher não tinha tais direitos àquela época.
A Banda Euterpe Montes-clarense durou um século levando sua
animação às festas e comemorações da cidade.
D. Eva Bárbara Teixeira de Carvalho faleceu em 1882, aos cinquenta
e oito anos.
Em uma homenagem à figura notável desta mulher que teve
grande participação no engrandecimento de sua comunidade, a rua
onde foi construida a primeira casa em Montes Claros, em 1768, pelo
Alferes José Lopes de Carvalho recebeu o seu nome: RUA DONA
EVA.
A casa do Alferes José Lopes de Carvalho foi a primeira do Arraial das
Formigas. D. Eva residiu nesta casa entre 1850 e 1887, quando faleceu.
Daí o nome “Casa de D. Eva”e da rua onde ela está situada.
A casa situava-se à esquerda de quem estava voltado para a Igreja
Matriz. Mais tarde recebeu o número 34. No periodo de 1850
a 1857 foi também moradia de D.Eva. E razão do nome “Casa de
D.Eva” popularmente difundido.
Em 1975, para tristeza de todos que reconhecem o valor das
raizes culturais, a Casa de D. Eva, de número 34, sede da antiga
Fazenda dos Montes Claros, foi demolida abrindo um irremediável
rasgão em nossa história e memória cultural.
CHUVA DE PEDRAS
EM MONTES CLAROS
Itamaury Teles
Cadeira N. 84
Patrono: Newton Prates
Na Bíblia, há narração de como Josué e o seu exército foram auxiliados por uma chuva de pedras, que caiu sobre o exército amorita. Até hoje, buscam-se explicações não científicas para o fenômeno. Enquanto alguns o interpretam como algo sobrenatural, outros afirmam tratar-se de intervenções de seres extraterrestres.
O interessante é que algo muito parecido ocorreu em Montes
Claros, em junho de 1972. Nessa época, eu era repórter policial de O
Jornal de Montes Claros, e sempre cumpria plantão na Delegacia de
Polícia, que funcionava na Rua Dr. Veloso.
Entre uma ocorrência e outra, vi chegar um casal assustado,
com sotaque carregado, pedindo ajuda à polícia. Eram portugueses,
da cidade de Pombal, mas residiam em Montes Claros desde 1957,
quando para cá vieram assumir a zeladoria da fábrica de tecidos, de
propriedade de Simeão Ribeiro Pires. O barraco em que moravam,
nos fundos da fábrica, na estrada do antigo Colégio Agrícola da
UFMG, vinha sendo atingido por pedras.
José de Oliveira, mais conhecido por “Zé Português”, então
com 63 anos, e sua mulher, Maria Soares da Silva, 54 anos naquela época, eram católicos e sempre faziam suas orações. Mas, mesmo assim,
segundo eles, “espíritos ruins” não os vinham deixando em paz.
Tudo começou no lusco-fusco, quando “seu” Zé tirava uma soneca.
Acordou assustado com as galinhas em alvoroço. Levantou-se,
apanhou a lanterna e foi ver o que se passava. Ao sair para o quintal,
recebeu uma certeira pedrada. Não se intimidou. Continuou resoluto
em direção ao galinheiro. Mas não conseguiu andar muito, pois as
pedras caíam cada vez em maior quantidade, e ele já estava todo machucado.
Desistiu e voltou para a cama, quase sem forças, carregado
pela mulher. No dia seguinte, voltou ao galinheiro e notou a falta de
vários espécimes. Sua reação foi registrar a ocorrência na delegacia
de polícia, pensando ter sido vítima de prosaicos ladrões de galinha.
No mesmo dia, quase todos os membros do departamento de
investigações (Sargento Anfilófio, cabo Vanderley, “Mirabela”, Zé Augusto
e Nélson Pinto) seguiram para o local apontado. Muito bem
armados, vistoriaram as cercanias, sem encontrar qualquer vestígio de
autoria, embora as pedras continuassem a cair, sempre no período de
18h00 as 18h30.
Uma das pedras passou através da janela e atingiu um armário,
quebrando tudo. Outra, vindo do teto, ofendeu o pé da dona Maria.
Nessa noite ela passou mal e até chamou o marido para sair dali, antes
que algo ruim pudesse lhes acontecer. Mas o Sr. José se recusou a atenderà mulher, embora também estivesse assustado com tudo:
- A gente fica meio encabulado com a coisa. Um dia notei que
as pedras estavam sendo jogadas por alguém escondido detrás de uma
moita. Quando meti o facho da lanterna na moita, recebi uma pedrada
nas costas. Fiquei quase doido e o jeito foi ir dormir... – lembrou
o português.
As possibilidades de as pedras serem arremessadas por alguém
escondido eram remotas. A casa dos portugueses localizava-se em um lugar limpo. Existia apenas um pequeno pomar nas proximidades,
mas este foi ocupado pelos policiais em campana.
O agente “Mirabela” explicou que foi lá só para desmascarar o
velho português. Mas voltou encabulado. Ficou escondido e viu tudo.
As pedras caíam sem que se pudesse precisar de onde vinham.
Quando os policiais retornaram à delegacia, ali encontraram
Castelo, conhecido dono de terreiro de macumba na cidade. Ao saber
do que ocorria, Castelo não se abalou muito com o caso. Disse já ter
feito parar muitas “chuvas de pedra” na cidade. Sabia das mandingas.
E, com empáfia, sentenciou:
- Já fiz até bicicleta que andava sozinha parar, quanto mais uma
simples chuvinha de pedras...
Alguns dias depois, o jornal ‘Estado de Minas’, em matéria assinada
pelo venerado repórter Fialho Pacheco, repercutiu a matéria em
nível nacional.
Depois disso, nunca mais se falou em chuva de pedras. Nem
mesmo do “seu” Zé Português. Certamente, atendeu aos apelos da
dona Maria e tenham retornado para a sua Pombal, onde criar galinhas
deve ser mais tranquilo.
Mas, passados mais de 40 anos, o mistério continua...
FOLCLORE: USOS E COSTUMES
Juvenal Caldeira Durães
Cadeira N. 81
Patrono: Nathércio França
Folclore é um gênero da cultura de origem popular, constituído pelos costumes, lendas, tradições e festas, transmitidas por via oral de geração em geração.
Há folclore fantasioso e infantil que prende a atenção das crianças e impressiona até adultos simples ou ingênuos, assim como: mula sem cabeça, lobisomem, saci-pererê ou saci-cererê, caipora ou caapora, almas penadas e outras semelhantes. Todavia, há uma outra área do folclore que trata de fatos verdadeiros e úteis, como aquilo que se pratica repetidamente, tornando-se: costume, usual, costumeiro e habitual nos hábitos da sociedade. É, então, com este propósito que escrevemos o presente texto, falando dos costumes e usos dessas coisas que herdamos de nossos antepassados e que perduram no tempo.
O povo do mundo inteiro conserva seu modo de ser ou não ser, de fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Isso lhe trás satisfação e até felicidade por usar o melhor que lhe convém, como alguns hábitos que descrevemos a seguir:
- O mutirão é um dos costumes que os camponeses usam nos
seus afazeres, para preparar e movimentar suas roças; nas construções
de casas; nas tendas de fabrico de farinha, da rapadura nos engenhos
de moagem da cana- de- açúcar e em outras atividades praticadas nas
comunidades.
- A alimentação, além do trivial, o povo usa uma grande variedades
de comidas, de acordo com suas regiões e suas condições
de vida. Usa-se o angu, o molho pardo, a canjica, a pipoca, a carne
de sol, o doce de mocotó, a goma, beijus, “crueiras”, mel, garapa,
açúcar mascavo, “puxas”. O feijão e o arroz tropeiros são criações dos
tropeiros, dos carreiros e dos vaqueiros nas suas viagens longas, por
serem refeições de preparo prático e rápido. A feijoada, hoje bastante
apreciada, vem dos escravos africanos do tempo colonial. No sul, usa
o churrasco, o macarrão, o chimarrão e muito vinho. No nordeste, a
farinha de mandioca, a carne seca, a farofa, a paçoca e outras comidas
semelhantes. No norte, o peixe, principalmente. É uso ainda, entre
as pessoas pobres, o “cariru, a beldroega” e outros tipos de vegetações
silvestres comestíveis.
- O vestuário, também, é diverso nas diferentes regiões brasileiras.
No sertão mineiro e nordestino, os vaqueiros usam a vestimenta
de couro curtido para seu trabalho no campo: perneira, gibão, guarda
peito e chapéu. Os agricultores também usam chapéu e alpercatas de
couro cru, feitas por eles mesmos. No sul, o vaqueiro usa, para lidar
com o gado, bombachas, lenço vermelho no pescoço, chapéu abas
largas, coturnos, montados nos seus cavalos fogosos bem arreados. O
janota brasileiro veste roupa exótica como: colete, jaquetão, gravata
de borboleta, chapéu abas curtas, etc. As mulheres, no passado, eram
obrigadas a usar saias longas cobrindo os tornozelos, blusas sem decotes
e de mangas compridas.
- A família, no passado, era reservada e sistemática. Os pais
eram casados na igreja, às vezes, também no regime civil. Os filhos
eram obedientes e trabalhavam para os pais até formar as suas próprias famílias, ao alcançar a faixa dos vinte aos trinta anos de idade.Às vezes, conseguiam o curso primário completo, estudar, no passado,
era coisa dos mais abastados. As mulheres eram respeitadas e
tomavam até o nome de rainha do lar. Não trabalhava fora, a não
ser no magistério ou em funções de mesma natureza. Eram vigiadas
pelas famílias e até pela vizinhança. Não andavam sozinhas e, muito
menos, frequentavam bares ou ambientes semelhantes para não serem
censuradas ou “faladas” pelo povo. Nas festas, as danças eram animadas
com sanfona em salas iluminadas e sob a vigilância dos presentes.
A família, sempre ligada ao movimento, não descuidava de vigiar o
procedimento dos dançantes. Geralmente, as moças ficavam em pé e
encostadas na parede e os rapazes, na parede oposta do outro lado. Ao
tocar uma música, eles cruzavam o salão e convidavam as moças para
a dança. Se houvesse alguma recusa do pedido, o moço e sua família
sentiam-se ofendidos e o baile poderia acabar em forte desavença e
até em pancadaria. O namoro era cerimonioso e vigiado pela família.
Uma intimidade abusiva e fora dos limites, implicava num casamento
forçado e às pressas com pesadas represálias. Caso contrário, o noivo
seria assassinado para lavar a honra da família da moça ou, ele teria
que fugir para lugar ignorado, sem nunca mais aparecer. Nesse caso, a
moça sofria penosas consequências: era expulsa da casa para a rua da
amargura ou ficaria confinada nos fundos da casa de seus pais, com
contato apenas, com a mãe e irmãs. O casamento era intermediado e
até determinado pelas famílias de ambos os lados e era, às vezes, realizado
entre parentes próximos, por conveniência. Quase sempre, os
noivos se conheciam no altar, como o caso do nosso vizinho Victor,
que pensou que iria se casar com Maria e casou-se com Joana, no dia
que a conheceu, no momento do casamento. Os presentes de núpcias
eram: peneira, ralo, bule, “quador” de café, panelas, pratos, xícaras,
potes, botijas e outros utensílios usados na época, mas, o que não
podia faltar era o pilão, presente tradicional do pai da moça. Caso
contrário, ele seria severamente criticado pelos amigos e familiares.
Na falta do pilão, a casa não funcionava. O pilão era imprescindível ou “pau para toda obra”. Servia para socar arroz com casca, para socar
milho para obter o fubá, a canjica, a canjiquinha para pintinhos, moer
café torrado, fazer tempero, e muitas outras coisas úteis. Sua utilidade
era como a do fogão à lenha, que, também, não podia faltar.
- Religião era rigorosa. Os padres com suas batinas pretas ou
brancas nas igrejas, nas procissões e missas, ministrando a fé para o
povo. O inferno era instrumento do medo para dominar os fiéis pelos
pregadores veementes. Havia ainda: os terços com ladainhas longas,
rezas, crendices, superstições, penitências, bandeiras juninas, fogueiras,
forrós, “dança coleção” ou quadrilha e as folias com melodias
suaves, “guaianos” e seus batuques. As festas de agosto com os ternos
de dançantes ou catopés, marujos, caboclinhos e cavalhadas. A Semana
Santa era cerimoniosa de penitência, de rezas, de igrejas. Era um
período cansativo e de tristeza, até o céu parecia escuro na Sexta-feira
de Paixão.
- Na doença, as pessoas pobres ficavam acamadas esperando
restabelecer com o repouso e remédios caseiros. Os visitantes não deixavam
de receitar-lhes algumas ervas silvestres ou orações ou simpatia
ou promessas milagrosas para suas curas. A assistência médica era privilégio
dos abastados e não chegava aos pobres.
- No caso de morte, o sentimento era manifestado com forte
emoção e pesar por familiares e amigos e ainda, as carpideiras pagas
completavam a dramaticidade, em volta do caixão, com seus choros
alarmantes nos momentos determinados. Na saída do enterro, pregavam
faixas pretas nas soleiras das portas e janelas de frente da casa e a
família passava a usar roupas de cor preta, por algum tempo, em sinal
de paixão pela perda do familiar.
- As festas de carnaval vinham antes da Semana Santa com muita
alegria e respeito. Usava-se serpentina, confetes e lança-perfumes.
Era comum aplicá-lo em lenços e cheirá-lo sem censura e sem danos,
o produto era puro e não era conhecido como droga e, além disso, sóvoltaria a repetir no ano seguinte. Não havia, aparentemente, maldades
durante os festejos tranquilos e ordeiros.
- Os vícios comuns eram a cachaça e o tabaco em forma de
cigarro, inalação de pó torrado e até para mascar. O cachaceiro era
censurado e evitado pela sociedade, quando violento e inconveniente.
Os fumantes de hábito constante eram tolerados e carregavam seus
apetrechos como: fumo, palhas de espigas de milho e ainda o seu“artifício” constituído de canivete, “boque” munido de um pedaço
de pedra “fígado-de-veado” e ainda de um pequena peça de aço, para
fazer e acender os grossos cigarros de palha.
Para melhor compreensão: o boque era feito da ponta do chifre
de novilho, cheio de algodão e com tampa; a pedra fígado-de-veado
soltava faísca ao ser tocada com impulso da mão, por uma pequena
lâmina de aço, para acender o boque e, consequentemente, o cigarro.
Os fumantes modernos usavam “bingas” ou isqueiros.
- Nos dias chuvosos reuniam as famílias e empregados na sala
grande para ouvir os contos da carochinha, como: “São outros quinhentos”,
“Amigo da onça”, Curupira, Almas penadas, Caapora, que
significa, também: caipira ou roceiro ou matuto. Contavam ainda as
diabruras de “Pedro Malazarte” e de outros iguais.
- Nas luas claras, as pessoas reuniam no pátio, envoltas de uma
fogueira para ouvir os violeiros e as modinhas suaves das mocinhas,
enquanto serviam o café com saborosos biscoitos de goma,beijus, requeijão
ou queijo e ainda, assavam mandiocas enxutas e batatas-doces
para o regalo de todos. Nos fins de semana, quase sempre, havia bailes
e bonitas cantigas regionais com muita paz e alegria. Nos tempos passados,
o povo era mais ordeiro e mais solidário. Além dos familiares,
havia os compadres, os amigos sinceros e respeitosos. O respeito era
obrigação de todos, caso contrário, a pessoa seria censurada e expurgada
da convivência dos demais.
- A caçada dava-se, também, nas noites de luas claras e de fins
de semana. Os rapazes vizinhos reuniam-se num lugar marcado, levando seus cachorros tatuzeiros e ferramentas necessárias para pegar
o tatu, para fazer a saborosa e famosa farofa. Acuado num buraco
pelos cachorros ávidos, a presa procurava, inutilmente, refugiar-se na
sua morada. A rapaziada, eufórica e insensível ao problema do bicho,
cavava até arrancar o pobre animal do fundo do buraco, para a alegria
de todos. A caça ao veado dava-se durante o dia e aos domingos, com
famosos cachorros veadeiros. Localizada a presa, os caçadores tomavam
os pontos estratégicos com suas espingardas carregadas pela boca
com pólvora, buchas e chumbos grossos, esperando o animal aflito,
fugindo dos dentes afiados dos cães, saltar numa trilha ao alcance
do tiro certeiro de sua arma mortífera. Outros, usavam-se da espera
nas bebidas ou em cima das árvores caraibeiras, que deixavam cair
suas flores procuradas pelos sedentos e famintos veadinhos, nas noites
claras e soturnas. Outros animais eram caçados impiedosamente e as
abelhas desarranchadas para tirar-lhe o seu precioso mel. Alimento fabricado
e reservado com árduo e penoso trabalho para a sobrevivência
da colmeia. A pesca era feita de diversas maneiras: com anzóis, com
tarrafas, redes, nos rios e lagoas piscosas.
- A produção de alimentos era ativa, porém, com poucos recursos
de manejo e de manutenção, apesar dos anos chuvosos e de muita
gente no campo oferecendo mão de obra barata. Não havia ferramentas
adequadas e maquinário apropriado à lavoura e, nem assistência
ao produtor, contudo, a produção era relativamente boa e dava para
a sobrevivência dos camponeses e ainda surtir o comércio local. As
feiras, para comercialização direta ao consumidor, eram realizadas aos
sábados, em Montes Claros, no então espaço localizado nos fundos
do mercado já demolido, onde hoje está construído o Shopping Popular.
O transporte para os grandes centros era difícil e para as cidades
vizinhas, fazia-se pelos carros de bois, tropas de burros e também, pequenas
tropas ou ”bruaqueiros”. As pessoas viajavam a pé ou a cavalo.
Veículo motorizado era raro e sua frequência, só bem mais tarde, com
construções de estradas adequadas ao trânsito.
Uso e costumes folclóricos é um assunto inesgotável, portanto,
muitas coisas curiosas e desconhecidas pelas gerações modernas, ficaram
esquecidas ou não mencionadas neste texto. Contudo, fizemos o
possível para abordar os pontos que achamos mais oportunos no momento,
e as demais, apesar de interessantes, deixaremos para ser tratadas
com mais profundidade e extensivamente, em outras ocasiões.
NATHÉRCIO FRANÇA
Juvenal Caldeira Durães
Cadeira N. 81
Patrono: Nathércio França
Nas minhas publicações em edições passadas da Revista/IHGMC, escrevi breves históricos sobre os primórdios da aviação em nossa cidade, citando algumas passagens do cometimento e nomes de seus principais precursores. Naquelas ocasiões aproveitei da oportunidade para realçar o nome de Nathércio França como participante assíduo, não só na criação da aviação, mais também, nas áreas sociais e nas atividades comerciais.
Agora, sirvo-me dos mesmos assuntos para exaltar a sua pessoa, não só como grande benfeitor e colaboradores da história de nossa cidade, mas também, como o meu patrono ilustre no Instituto Histórico de Montes Claros/IHGMC.
Nathércio França foi uma figura atuante na frente do movimento de implantação da aviação em Montes Claros, participando das construções de suas obras e de outros empreendimentos necessários ao desenvolvimento de um sistema aéreo que, apesar de parco e elementar na época, legou-nos uma obra florescente que acompanhou, com o passar do tempo, o crescimento da cidade, dotando-nos,
hoje, de eficiente e luxuoso meio de transporte.
João Leopoldo conta, com certo orgulho, que seu pai Nathércio
França e o amigo e colega de turma, Flamarion Wanderley, foram
os fundadores do Aeroclube de Montes Claros, com sede provisória
numa sala do 1º andar da antiga Casa Alves, localizada no centro da
cidade. Conta ainda que o piloto Nathércio foi obrigado a fazer uma
aterrissagem forçada no meio do mato, com seu teco-teco, enquanto
conduzia o advogado Dr. Carlos Mota a uma cidade vizinha. Todavia,
foram socorridos por fazendeiros da região, sem maiores consequências.
João lembra ainda das piruetas e vôos rasantes de seu pai e
das apreensões de sua mãe com suas orações para proteger o marido
extravagante.
Montes Claros é uma cidade simples, com seu centro antigo de
ruas estreitas, mal cuidadas, com trânsito confuso e sem grandes atrativos
turísticos. Por outro lado, ela cresce vertiginosamente, ampliando
os seus recursos e seus bairros nobres. Além disto, é uma cidade
cosmopolita, que abraça os seus filhos natos e de coração, dos quais
saem os mais ilustres homens que ficam na sua história com louvor,
como esses precursores da aviação de nossa terra, que eu tive a sorte de
conhecer e até de conviver com alguns deles, que aqui destaco.
Nathércio França era um desses precursores. Simpático, atencioso,íntegro e de delicadeza incomum, dotes que me levaram a escolher
o seu nome como patrono da minha cadeira no IHGMC, o
que motivou-me a deter, um pouco mais, sobre a sua pessoa neste
contexto.
Ele procede de uma família tradicional da cidade de Araguari
-MG e nasceu em 05/09/1905. Foi transferido para a cidade de Montes
Claros a serviço do Banco Comércio e Indústria S.A. em 1929,
onde conheceu Antônia de Andrade Alves (Nina), filha do famoso
casal Dr. João Alves e Dona Tiburtina, com quem se casou aos 26
anos de idade, em 1931, e tiveram um casal de filhos. Estagiou-se no Rio de Janeiro, com seu colega e amigo Flamariom Wanderley, onde
foram brevetados e se tornaram pilotos civis do Brasil, com condições
para fundar o Aeroclube de Montes Claros.
Nathércio França recebeu o título de Cidadão Montesclarense
pela Câmara por ter desempenhado funções na comunidade, tais
como:
- Um dos fundadores da aviação e do Aeroclube de Montes
Claros e seu primeiro tesoureiro;
- Fundador do Rotary Clube Norte;
- Secretário da Companhia Energética – MG;
- Secretário da CAEMC (Companhia de Água) e da Telemig;
- Foi componente da diretoria da Associação Comercial e Industrial
de Montes Claros;
- Representante da RENNER, aproximadamente, 30 anos;
- Representante da CHEVROLET, 10 anos aproximadamente;
- Trabalhou na Nacional Aéreo por 10 anos.
Aos 46 anos de idade, Nathércio perdeu a filha, Geralda Maria
Alves França, proveniente de uma cirurgia de apendicite. Com
esse transe, ele abandonou a aviação em intenção à filha, que sentia
apreensões, juntamente com sua mãe, durante seus vôos rasantes e
piruetas no céu dos Montes Claros.
Em 1958, ele estabeleceu a loja Renner, que teve continuidade
com o filho João Leopoldo. E aos 76 anos de idade, quando exercia
a liderança espírita na Fraternidade Canacy, veio a falecer proveniente
de câncer no estômago. Deixou esposa, filho, nora, netos, netas e
muita saudade.
Apesar de seu esforço e de suas realizações em prol da aviação
local e do desenvolvimento social, comercial e empresarial de Montes Claros, não foi lembrado para dar seu nome, pelo menos, a um dos
monumentos originários de suas lutas e de seus empreendimentos. Os
louros, como sempre, ficaram com outros que na época, nem eram
nascidos.
Nathércio e sua esposa Nina
Como o espaço é limitado, mostrei, de maneira superficial, algumas
das contribuições que Nathércio França legou à cidade e à
região, sem interesse de se beneficiar social e politicamente com seus
feitos. Ele não era vaidoso e nem se envolveu com nenhuma facção
partidária, apesar de ter convivido dentro de um ambiente que se respirava
política. Ele era uma pessoa impoluta, desprendida e discreta.
Dividia o seu precioso tempo com obrigações familiares, com afazeres
cotidianos, com obras sociais em benefício do próximo desamparado
e ainda com o progresso da cidade.
Deixou saudade entre seus amigos e família constituída pelo
seu filho João Leopoldo que vive no elegante bairro “Setor Jaó” da bela cidade de Goiânia em companhia de sua nobre e graciosa família,
seguindo os passos e princípios dignos de seu saudoso pai.
Assim, procurei testemunhar e homenagear uma pessoa digna
de valor e de nosso reconhecimento, com quem tive o privilégio de
conviver por longos anos, e tomar-lhe seu nome como meu patrono.
As pessoas tornam-se eternizadas pelas boas obras que constroem
em benefício próprio e de seu próximo. Assim, foi o saudoso
Nathércio França.
CEL. ADERBAL CORREA DA SILVA
FUNDADOR DO 10º BATALHÃO
Lázaro Francisco Sena
Cadeira N. 55
Patrono: João Luiz de Almeida
Para escrever a história do 10º Batalhão da Polícia Militar, realizamos minuciosa pesquisa documental junto ao arquivo da Unidade, ao par de inúmeras entrevistas com policiais-militares mais antigos e outros montes-clarenses que testemunharam a instalação e acolhida desse órgão de segurança junto à comunidade local. A cada passo, delineava-se a figura do então capitão Aderbal Correa da Silva como a “pedra angular” da corporação militar que aqui chegou em 28 de julho de 1956, para cuidar da manutenção da ordem pública em toda a região Norte de Minas.
- “Cadê aquele militar de ar severo, o capitão Aderbal, que normalmente resolvia todos os problemas do Batalhão, logo que ele aqui se instalou?” Esta foi a pergunta do confrade Wanderlino Arruda, ao saber do trabalho que estávamos desenvolvendo.
- “Antes de instalar-se em Montes Claros, o 10º Batalhão funcionou provisoriamente em uma repartição do antigo Batalhão de Guardas, em Belo Horizonte, sob a liderança do major Geraldo Batista, seu primeiro comandante, tendo como subcomandante o venerável
capitão Aderbal Correa da Silva.” Foram palavras do coronel
reformado Smith Alves Valentino, integrante da primeira turma de
oficiais que serviram no 10º Batalhão, ao ser entrevistado sobre a instalação
da Unidade em Montes Claros.
- “É de justiça, também, que se proclame o quanto deve o 10º
Batalhão às qualidades excepcionais do oficial de cujas mãos honradas
venho de receber o comando, o capitão Aderbal Correa da Silva.”
Assim se expressou o então major José Geraldo de Oliveira, ao assumir
o comando da Unidade em 01-10-1957.
As declarações acima foram espontâneas. Muitos outros depoimentos,
a nosso pedido, confirmaram a importância de Aderbal na
instalação e consolidação da nova Unidade da Polícia Militar nesta
cidade e região, destacando-se internamente perante os seus companheiros
de farda e conquistando, pelo trabalho e pelo bom exemplo,
a admiração e o respeito de todos os segmentos da sociedade local.
O capitão Aderbal chegou a Montes Claros junto com o 10º
Batalhão, em 28 de julho de 1956, para ser o seu subcomandante,
sendo promovido a major em 10 de outubro de 1959, permanecendo
nas mesmas funções até 01-12-1960, quando foi transferido para
o 12º Batalhão da cidade de Passos-MG. Serviu portanto como auxiliar
e substituto imediato dos três primeiros comandantes efetivos
da Unidade, na sequência: Geraldo Batista, José Geraldo de Oliveira
e Armindo Pereira Fernandes. Também exerceu interinamente o comando
da Unidade, de 13-09-1957 a 30-09-1957, pelo período de
dezoito dias, enquanto se aguardava a designação de um comandante
efetivo. O seu tempo de serviço no Décimo, portanto, chegou a quatro
anos, quatro meses e quatro dias.
Ao rastrear as publicações de “notas do comando” relativas a
datas comemorativas do Batalhão, encontramos autênticas peças literárias
que bem marcavam o estilo inconfundível de Aderbal, um verdadeiro “mestre” na arte de escrever. Como exemplo, destacamos
os seguintes trechos:
Capitão Aderbal Correa da Silva, primeiro subcomandante
do 10º Batalhão em Montes Claros.
- Em 19-11-1956, em solenidade de formatura da primeira turma
de soldados do Batalhão, escreveu: “A vossa missão, caríssimos
recrutas, não se prende apenas a prevenir ou reprimir os crimes. Deveis,
antes de tudo, procurar mostrar ao cidadão, que se rende à vossa
proteção, que sois educadores, que, como apóstolos do bem, ides por
esse sertão afora espalhar as sementes das lições de civismo e patriotismo
que recebestes na caserna. É necessário que façais tudo para que seja a vossa autoridade respeitada, o que podeis facilmente conseguir,
desde que limiteis o exercício dela à órbita da legalidade. Nunca useis
da farda tradicional e gloriosa que envergais para humilhar o cidadão,
a quem deveis respeito. Mas, da mesma maneira, jamais deixeis que
seja ela envolvida pela peçonha daqueles que, não compreendendo a
grandiosidade da vossa grande missão, queiram fazer de vós instrumento
de perseguição contra os vossos irmãos.”
- Em 28-07-1957, pelo primeiro aniversário de instalação da
Unidade em Montes Claros, escreveu: “Evocamos, nesta oportunidade,
os dias difíceis de 1956, quando a nova unidade ensaiava os
seus primeiros passos. Sem dúvida, uma plêiade de oficiais, sargentos
e soldados, não medindo sacrifícios, inclusive das suas próprias
famílias, naqueles dias se entregou, de corpo e alma, à tarefa difícil
que lhe fora confiada. Viram, todavia, compensados sobejamente os
seus esforços, porque, felizmente e mercê de Deus, vem o Batalhão
caminhando galhardamente com os seus próprios pés. Nada nos resta
agora, senão apelarmos para a tenacidade, bravura e o entusiasmo
sempre presente e inquebrantável do soldado mineiro, a fim de que
possamos levar avante a tarefa a que nos propusemos, sem jamais nos
curvarmos diante das injunções e intrigas da política rasteira dos inconformados.”
A história de Aderbal na Polícia Militar começou bem cedo
para ele, em 1933, aos 15 (quinze) anos de idade, quando ingressou
no 1º Batalhão de Belo Horizonte, também conhecido como Batalhão
de Guardas. Como não tinha idade para incorporar-se, ficou ali“encostado”, prestando serviços na banda de música da Unidade, destacando-se como copista de partituras, por ser possuidor de excelente
caligrafia. Atingindo a maioridade, fez todos os cursos profissionais
da carreira naquela época, inclusive o curso de oficiais, tendo integrado
uma das primeiras turmas formadas pelo DI-Departamento de
Instrução da Polícia Militar, na década de 1940. Quando já era capitão
e ainda servindo no Batalhão de Guardas, pelas suas qualidades de oficial probo e competente, foi escolhido, pelo comando geral da
Corporação, para ser o primeiro subcomandante do nascente 10º Batalhão
que se instalaria em Montes Claros. Dessa forma ele participou
da gestação da Unidade ainda em Belo Horizonte, de seu nascimento
nesta cidade e de seu crescimento em toda a região, onde chegou a
ocupar uma terça parte do território de Minas Gerais. Após a estruturação
e consolidação do Décimo em Montes Claros, já com o posto
de major, foi transferido para a cidade de Passos-MG, a fim de levar
sua experiência na instalação de mais uma Unidade no Interior do
Estado, o 12º Batalhão da Polícia Militar. Em 1962, foi promovido a
tenente-coronel e transferido para o 9º Batalhão de Barbacena, para
ser o seu comandante, cargo que exerceu até 1964, quando foi transferido
para a reserva, promovido ao posto de coronel.
Como era o costume naquela época, o coronel Aderbal, já no
quadro de oficiais da reserva, exerceu o cargo de delegado especial de
polícia nas cidades de Sarzedo, Corinto, Curvelo e Governador Valadares.
Na mesma condição, ainda prestou relevantes serviços, como
diretor da Caixa Beneficente da Polícia Militar, hoje IPSM-Instituto
de Previdência do Servidor Militar do Estado de Minas Gerais
Fora da Polícia Militar, o coronel Aderbal formou-se em Contabilidade,
nível médio, curso que lhe facilitou o exercício de diversas
funções administrativas na Corporação. É preciso informar que, naquelaépoca, cada batalhão da Polícia Militar tinha vida econômicofinanceira
própria, com várias fontes de receita, e competência legal
para realização das despesas necessárias ao seu funcionamento.
Aderbal Correa da Silva nasceu a 21 de junho de 1918, na cidade
de São Braz do Suassuí-MG, filho de Braulino Correa Loureiro e
Maria Correa Paixão. Em outubro de 1956, três meses depois de chegar
a Montes Claros, como subcomandante do Batalhão, participou
da festa de inauguração da Escola Estadual Dom João Pimenta, onde
conheceu a professora Maria Aparecida de Paula, de quem se enamorou
e com quem se casou a 15 de setembro de 1959, vindo o casal a
gerar três filhos: Cléber Correa da Silva, advogado, Heloísa Correa da
Silva e Cláudia Correa da Silva, ambas assistentes sociais. Seu falecimento
ocorreu em 3 de abril de 2002, na cidade de Belo Horizonte,
aos oitenta e três anos de idade.
Formatura em Contabilidade
Em conversa telefônica com a viúva do coronel Aderbal, a Sra.
Maria Aparecida de Paula, irmã do nosso confrade e presidente de
honra do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, Dr. Luiz
de Paula Ferreira, a ela solicitei, inopinadamente, que me dissesse,
numa frase bem diminuta, quem era o cidadão Aderbal Correa da
Silva. Ela, de pronto, me respondeu: “era um homem espetacular,
muito justo e responsável, com a família e a profissão.”
Obrigado, Da. Aparecida, por confirmar o nosso ponto de vista,
ao resumir tão bem as qualidades do seu falecido marido, nosso
personagem aqui retratado.
Coronel Aderbal, convalescente de cirurgia cardíaca, com a família,
em Belo Horizonte: Cláudia (filha), Da. Aparecida (esposa), Heloísa (filha),
Kleber (filho) e Bárbara (neta).
LOJA PUREZA
Manoel Messias Oliveira
Cadeira N. 60
Patrono: Jorge Tadeu Guimarães
Os fatos nobres da humanidade acontecem através das grandes realizações e se faz com ações relevantes. Inadmissível é ignorar tais fatos e, muito mais ainda, deixar de resgatar a história.
Estudar e registrar os grandes acontecimentos com equilíbrio é apanágio de todo ser humano, porque quem não conhece o passado, não entende o presente e, certamente, será lesado no futuro.
Com as ações, as atitudes e os bons exemplos daqueles que nos antecederam é que firmamos a caminhada e direcionamos os feitos à posteridade. Isso é uma realidade universal. Por isso é de grande importância deixá-los registrados para a memória das gerações pósteras; o que não devemos é fechar os olhos e virar as costas para as ocorrências que marcaram épocas e que foram dignas de aplausos e elogios.
Repassando as páginas da história de Montes Claros, verificamos que no dia 21 de junho de 1894, ultimando-se o século XIX, nascia em Montes Claros uma das mais fascinantes organizações de que se tem notícia, a Maçonaria. Foi nesse dia, mês e ano que houve
a fundação da primeira Loja Maçônica em nossa cidade e recebeu a
denominação de “Pureza”; ela foi criada com as suas bases alicerçadas
em ações humanitárias, objetivando a Paz e a Justiça Social. Constituída
por homens probos, de bons costumes e de visões elevadas, unidos
pelo sentimento fraterno, fundamentado na moralidade e na verdade,
com o fim de praticar a virtude e a solidariedade sem preocupações de
fronteiras, de credo ou de raça, o que facilitou a conscientização dos
seus objetivos.
Um detalhe interessante de ser mencionado é que, a Loja Maçônica
Pureza, é a mais antiga Loja Maçônica de Montes Claros, figurando
também entre as mais antigas instituições de que se tem notícia
nesta terra; em 21 de junho do ano de 2014, celebrou o seu 120º
aniversário, portanto, indiscutivelmente faz parte da sua história.
Uma prova de que o poder nasce do querer, impelidos pelo
entusiasmo, uma vez que o entusiasmo faz o homem, essa data entrou
para a história da Maçonaria no Norte de Minas, quando na residência
do Capitão Pedro Augusto Teixeira Guimarães, no Largo da Matriz,
reuniram sob a liderança do Coronel Celestino Soares da Cruz,
um grupo de homens dos mais diversos seguimentos da sociedade, de
gestos simples, mas com visões amplas e extraordinárias voltadas para
o futuro que, num clima de euforia, fundaram a Loja.
O fato aconteceu com maciça coesão e total liberdade de decisão
pelo grupo formado por homens de diversas formações intelectuais
e éticas, com destaques para lideres políticos, militares, juízes de
direito, advogados e comerciantes. Após muitas reuniões preparatórias,
com entendimentos e discussões, esse grupo decidiu que fosse
lançada a Pedra Fundamental que constituiria a síntese germinal que
resultou em notável realidade: a fundação da Loja Pureza.
Sem sombra de dúvida, nenhuma organização é tão fascinante
quanto a Maçonaria. Inebriados por esse fascínio foi que o Coronel Celestino Soares da Cruz convidou o seu genro Capitão Pedro Augusto
Teixeira Guimarães, o Capitão José Philomeno de Araújo, o
Capitão Camilo Cândido de Lelles, o Alferes Ovídio Moreira e Mello
e Getúlio Fernandes Ferreira, que irmanados no mesmo proposito,
convidaram outros cidadãos visionários para se juntarem a eles, formando
assim uma reunião perfeita que, com vontade e determinação,
naquela memorável e histórica reunião do dia 21 de junho de
1894, na residência do Capitão Pedro Augusto Teixeira Guimarães.
Ultimaram com muita coragem e ousadia o projeto, fundando-se em
definitivo uma Loja Maçônica em Montes Claros, no Norte de Minas
Gerais. Para perenizar o acontecimento foi lavrada a respectiva ata de
fundação no livro próprio, seguindo-se daí as demais providências
junto aos órgãos competentes para a complementação com a sua regularização
e consequente reconhecimento público. Estava facetada
mais uma página na história de Montes Claros.
Ele não surgiu por acaso. Foi criada por inspiração de homens
com ideias, valores e condutas ilibadas compatíveis com as doutrinas
progressistas de uma época; homens de espírito empreendedores,
agentes de transformação cujos ideias foram direcionados para um
mundo mais fraterno e solidário.
Outrossim, achando oportuno, esclarecemos que a Maçonariaé apolítica e não é uma religião como pensam algumas pessoas. Ao
contrário, ela desde as suas origens cuidou de abolir debates e discussões
sobre assuntos políticos e religiosos, sabendo de que se trata de
temas que exaltam, separam e tornam os homens inimigos entre si.
Baseia-se no respeito à Pátria, à Família e ao Individuo (ao próximo),
tendo por lema a tríade: Liberdade. Igualdade e Fraternidade e tem
como princípio a honra, a dignidade e o caráter. As ações de filantropiaé o seu ponto alto. Se assim não fosse, não teria se sustentado e
atingido a grandeza e a respeitabilidade em todo o mundo.
ANTÔNIO GONÇALVES FIGUEIRA
DE BERTIOGA AOS CURRAIS DO SÃO FRANCISCO E DE VOLTA A SANTOS
Maria Aparecida Costa
Cadeira N. 07
Patrono: Antônio Gonçalves Figueira
...O que se vê, e não se remedeia, ainda que se esteja vendo quatrocentos anos, ainda que se esteja vendo a uma eternidade inteira, ou não se vê, ou se vê como não se vira.
Pe. Antônio Vieira-Lisboa, 1669
INTRODUÇÃO
Era minha intenção escrever sobre o homem Antônio Gonçalves Figueira, mas diante da distância temporal e da escassez de fonte bibliográfica, optei por abordar o tema, realizando essa síntese abaixo que foi possível, utilizando textos escritos por ilustres historiadores, pesquisadores, antropólogos e professores.
Estudos, pesquisas reflexões e análises antigas e contemporâneas, e por isso mesmo, misturadas a afirmações incisivas, hesitações, sinuosidades e subterfúgios, levaram-me em certos escritos a ter dúvidas, seriam verdades?
DATA |
EVENTO |
1665 |
Nasce em Bertioga Antônio Gonçalves Figueira, filho
de Manoel Affonso de Gaia e Maria Gonçalves
Figueira
|
Sem data precisa |
Junto com os irmãos, acompanha o pai Manoel Affonso
de Gaia nas estradas ao sertão de Paranaguá
em busca de minas de ouro.
|
1674 |
Ainda menino Antônio Gonçalves Figueira, acompanha
o cunhado Mathias Cardoso de Almeida
no périplo de Fernão Dias Paes, em busca das esmeraldas,
nos sertões do curso médio do rio São
Francisco.
|
Sem data precisa |
Casa-se com Isabel Ribeiro de Aguiar com quem
teve os seguintes filhos: Manoel Ângelo Figueira,
Sargento Mor de Santos, Francisca Ângela Xavier
da Silva, Maria Ignácia da Silva, Miguel Gonçalves
Figueira, Córdula Maria de Jesus e André Gonçalves
Figueira.
|
Sem data precisa |
Os criadores de gado dos Currais do São Francisco
estabelecem comércio com a região de Salvador. A
estrada entre Morrinhos e a capital da Colônia era
lugar de intenso trânsito de gado, animais de tração
e gêneros alimentícios.
|
1689 |
Alferes na Infantaria, acompanhado por 12 escravos
arcabuzeiros incorpora-se a um dos terços que
compôs a força coordenada por Mathias Cardoso
de Almeida na luta contra os indígenas confederados,
com os Kariri que ficou conhecida na História
do Brasil como a Guerra aos Bárbaros; (tapuias e
outros).
No nordeste, dezesseis sociedades indígenas se articularam
para expulsar os adventícios (reinós – os
portugueses e colonos – os brasileiros) atacando
povoações nas capitanias do Rio Grande do Norte,
de Pernambuco e do Ceará. Durante estes acontecimentos
conflituosos, Antônio Gonçalves Figueira
consegue com seus doze escravos arcabuzeiros
diversas vitórias, sendo a mais conhecida a do rio
Jaguaribe, com estratagemas aprendidas com o Governador
de Guerra, Mathias Cardoso de Almeida.
Assim, conseguiu impor derrotas aos indígenas que
fugiram com grandes perdas.
Em 12 de novembro de 1693 socorreu João Amaro
Maciel Parente, líder do segundo terço da infantaria
de guerra de Mathias Cardoso de Almeida,
em luta contra os indígenas Guereu, contribuindo
para impor derrotas e forças a sua retirada para o
Mearim no Maranhão.
|
1695 |
Funda a Fazenda Brejo Grande, ainda existente
em Santo Antônio do Retiro, primeiro engenho
de rapadura e cachaça, após vencer duas sociedades
indígenas no alto rio Pardo de Minas. Chegou
a área com 700 escravos indígenas, resultante da
partilha aos vencedores da guerra aos confederados
do Kariri.
|
Sem data precisa |
Após o retorno à Guerra dos Bárbaros, vai a Vila
de São Paulo e com Mathias Cardoso de Almeida,
atrai para os Currais são Francisco muitos moradores
desta Vila. Há duas possibilidades de explicação
para a vinda dos irmãos do Alferes Antônio Gonçalves
Figueira para a área do Gurutuba onde se
instalaram. A primeira, uma bandeira era composta por familiares e como já informado acima, em
1674 aos 9 anos de idade acompanha seu cunhado
Mathias Cardoso de Almeida aos sertões do
São Francisco. Considero que seus irmãos podem
ter acompanhado o cunhado, chefe de bandeira,
após a morte do pai. A segunda, após a vitória aos
indígenas confederados com os Kariri, nesta viagem
a Vila de São Paulo, dentre outros paulistas,
seus irmãos vieram fundar fazendas às margens
do Gurutuba. São seus irmãos: Inês Gonçalves Figueira
casada com Mathias Cardoso de Almeida,
Manoel Affonso de Gaia que funda a Fazenda de
São Miguel do Gurutuba e posteriormente retirase
para a Vila de Cachoeira na Bahia onde se casara
com Antônia Peres, João Gonçalves Figueira funda
a Fazenda na bacia do rio Verde Grande, Miguel
Gonçalves Figueira, funda fazenda às margens do
rio Pacuí e depois transfere-se para a Vila do Serro
Frio, hoje Diamantina, onde se dedica à mineração
de diamantes, Pedro Nunes Siqueira funda fazendaàs margens do rio São Francisco na foz do rio
Pacuí, tendo sido Capitão de Ordenança do São
Francisco.
|
|
Abriu estrada da Fazenda Brejo Grande para Morrinhos
com 40 léguas de extensão, para propiciar
contato com os membros da família, ou seja, os
membros da bandeira de Mathias Cardoso de Almeida.
A subida da serra do Espinhaço se fazia na
região da atual cidade de Monte Azul, até vincularseà estrada que unia Morrinhos a Salvador.
Alarga a estrada que uniu Morrinhos, atual cidade
de Mathias Cardoso, a Salvador, passando por
Tranqueiras na Bahia.
Funda a Fazenda Jahyba no curso médio do rio das
Rãs na Bahia.
|
12/04/1707 |
Antônio Gonçalves Figueira funda nas cabeceiras
do rio Verde Grande a Fazenda dos Montes Claros,
quando recebeu doação de sesmaria de três Léguas
de comprimento por meia légua de largura, à margem esquerda do Rio Verde Grande, em suas
cabeceiras.
|
Setembro/1707 |
Funda na bacia do rio Verde Grande a Fazenda
Olhos D’Água (possivelmente a atual cidade de
Francisco Sá, dado que neste mesmo período funda
a fazenda que dá origem a Montes Claros).
|
1715 |
Com a descoberta de ouro na região do Itacolomi,
que passou a ser conhecida como a região das
minas gerais, e o estabelecimento dos criadores de
gado dos Currais do São Francisco de comércio de
gado, animais de tração e gêneros alimentícios com
os mineradores. Antônio Gonçalves Figueira abriu
estrada até as minas da área de Sabarabuçu e de
seu entorno, que passou a ser conhecida como Estrada
de São Francisco, ou Caminho das Boiadas.
Há um braço desta estrada que vai até Pitangui,
passando por Montes Claros.
|
Sem data precisa |
Retorna a Santos e se estabelece na Fazenda Curuguaterá,
atual Curuára. Vende as fazendas Olhos
D’Água e Boa Vista para Estevão Pinheiro. A fazenda
dos Montes Claros fica com seu filho André
Gonçalves Figueira (este participa das revoltas
dos criadores de gado do São Francisco, conhecidas
como “motins do sertão) ou “Conjuração do
São Francisco”, sendo o primeiro exilado brasileiro
para a África).
|
Sem data precisa |
Antônio Gonçalves Figueira recebe carta patente
de Juiz Ordinário e de Órfãos da Vila de Santos.
Contribui com avultado cabedal à capela da Ordem
Terceira do Carmo na Vila de Santos, onde foi
Prior durante muitos anos.
Ocupou cargos da república, como Vereador na
Câmara da Vila de Santos.
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05/05/1729 |
Recebe a carta patente de Capitão de infantaria da
Ordenança do Sítio e Barra da Fortaleza de Bertioga.
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1740 |
Falece em Santos aos 75 anos de idade |
DEPREENDE-SE DE SUAS AÇÕES
QUE ANTÔNIO GONÇALVES FIGUEIRA TINHA
TRAÇOS FORTES DE PERSONALIDADE:
Valorosa resistência na luta contra os indígenas confederados
com os Kariri;
Honrado valoroso e de grande bravura;
Ânimo forte, astucioso e dotado de inteligência que propiciava
criar estratagemas na luta contra os indígenas;
Soldado com fama reconhecida dormia sempre calçado para levantar-se de pronto nas lutas contra os indígenas;
Dotado de morais virtudes, como a da honra, verdade, fidelidade
e limpeza de mãos;
Solidário, contribuiu para as obras da ordem Terceira do Carmo;
Dotado de heroísmo e abnegação na constituição das fazendas
dos Currais do São Francisco;
Contribuiu significativamente para vincular os Currais do São
Francisco às áreas que demandavam alimentos (Salvador e região das
minas gerais), construindo estradas com recursos próprios.
Desbravador do sertão norte-mineiro;
Fundador de fazendas no vale do rio Verde Grande;
Apesar de fundador de Montes Claros, tem como reconhecimento
apenas a denominação de uma via pública, que oblitera seu
nome de batismo e focaliza o nome de família, ou seja, rua Gonçalves
Figueira, paralela à Praça Dr. Chaves, ou Praça da Matriz, conforme
Lei 282 de 28/05/1955 e uma Escola Estadual “Antônio Figueira”.
CONCLUSÃO
A partir do exposto, parece claro que somente uma abordagem
que colocasse em foco a história da colonização do “sertão” e as
origens de Montes Claros daria sentido a esta síntese, onde destaco
Antônio Gonçalves Figueira, inserido no contexto, do qual é parte
integrante.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A Bandeira de Fernão Dias, Paulo Setubal, São Paulo: Editora
Saraiva, 1971
Antônio Gonçalves Figueira, Wikipédia, a enciclopédia livre –
18/08/2009
Efemérides Montes –Clarenses, Nelson Washington Viana –
Montes Claros Editora UNIMONTES, 2007.
Entrevista sobre a ocupação do Sertão Norte Mineiro, Antropólogo
Doutor, João Batista Almeida Costa, Montes Claros 2010.
História Primitiva de Montes Claros, Dario Teixeira Cotrim –
Montes Claros. Editora UNIMONTES, 2007
Monografia de Montes Claros, Urbino Viana Filho. Editora
UNIMONTES, 2007.
Montes Claros, sua história, sua gente, seus costumes, Hermes
de Paula – BH 1957
Nobiliarquia Paulistana, Pedro Taques de Almeida – Xerox na
UNB, 2010.
Os caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil – Brasília. Editora
UNB, 1963
O Sertão Norte Mineiro, Antônio Ferreira Cabral, Montes Claros,
Editora: Polígono, 1985.
Raízes de Minas, Simeão Ribeiro Pires. Montes Claros, 1979.
São Paulo – 1554/1880 Janice, Theodoro da Silva – Editora:
Moderna, São Paulo, 1984.
Textos diversos: Revista Montes Claros em Foco, Revista do
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, Revista Verde
Grande e outros.
REFERÊNCIAS SOBRE DADOS DE
ANTÔNIO GONÇALVES FIGUEIRA
ZEMELLA, Mafalda. O Abastecimento da Capitania de Minas
Gerais no século XVIII.
Citando – Informações sobre as minas do Brasil. s/d Anais da Biblioteca Nacional, volume LVII, p. 180.
- Primeiro alambique na fazenda Brejo Grande no início do caminho do gado em Rio Pardo de Minas.
ANUÁRIO DE MINAS GERAIS, Ano IV / 1911.
Chorografia Mineira - governo civil e eclesiástico: Notas e informações.
Estabelecimento em 1694 de fazenda pastoril em Brejo Grande
em Rio Pardo de Minas.
ACCIOLI, Inácio. Memórias históricas e políticas da Província
da Bahia.
Fazenda de Gonçalves Figueira em Brejo Grande nas proximidades
da nascente do rio Pardo de Minas.
Choupanas. (Reproduzidas de Alcântara Machado, Vida e morte do
bandeirante, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, EDUSP, 1980.)
Antiga Fazenda Curuguaterá, hoje Curuára
Curuára, hoje distrito de Santos
A MUSA DAS ARTES
Maria Luiza Silveira Teles
Cadeira N. 42
Patrono: Geraldo Tito Silveira
Para mim, Felicidade Patrocínio é uma das mulheres mais cultas de Montes Claros e, quiçá, do Norte de Minas. Mas, ela não guarda a cultura para si e nem apenas faz cultura. Ela é uma das maiores propulsoras da Cultura em Montes Claros.
Adentrar ao Ateliê Felicidade Patrocínio é beber cultura e beleza. Tudo ali nos encanta, criando um ambiente de magia, que nos transporta, provavelmente, ao Olimpo.
Eu vi esse sonho de Felicidade nascer, crescer e tomar corpo. Ela lutou bravamente, estragando suas mãos nos fornos e intoxicando seu organismo com materiais como o chumbo, para moldar a beleza e tirar de suas peças o necessário para criar toda aquela magnífica estrutura.
E não apenas criou uma galeria para expor artes plásticas, mas um espaço para que a cultura fosse promovida, se expandisse e multiplicasse.
Seu ateliê tornou-se um movimento artístico formidável, cheio
de vida e efervescência. Criou o Clube de Leitura, onde livros famosos
de clássicos e escritores contemporâneos são discutidos por um seleto
grupo de intelectuais e estudantes, ansiosos pelo saber, e expostos
por pessoas de renome no meio cultural. Esse clube tem sido muito
falado, exposto e discutido por cronistas extraordinários como Mara
Narciso, Petrônio Braz e outros do mesmo quilate.
Criou, também, o Escambo de Livros, oportunidade ímpar de
troca não apenas de livros, mas de experiências e conhecimentos.
Criou ainda naquele espaço cursos de arte para crianças e adultos
e yoga, exercício oriental de movimentos harmoniosos, que ajudam
o corpo, a mente e o espírito. Ela se preocupou com tudo.
Só posso comparar a ela o nome de Marina Lorenzo Silva, que
assisti, na década de 60, criar o que, hoje, é o santuário da Música no
Norte de Minas.
Adolescente, estive ao lado de Dona Marina, como professora
de Inglês no insipiente Conservatório, numa velha casa, e, mais tarde,
como professora de Princípios Básicos da Educação.
E, assim como a criação de Dona Marina se transformou no
Conservatório Estadual de Música, relicário do Norte de Minas, já
prevejo tombado o Ateliê Felicidade Patrocínio, uma instituição voltada
para a disseminação da arte e da cultura, de um modo geral.
Mas, Felicidade não é apenas uma artista plástica de extremo
valor e uma propulsora da cultura; é, também, uma escritora de boa
cepa, talentosa e profunda.
Ao ler o que ela escreve percebemos a profundidade e a amplitude
de seus conhecimentos, assim como a extensão da beleza, que ela
vai beber em todos os países e em todas as fontes.
Acabou de publicar um livro sobre Raimundo Colares, ou,
simplesmente, Ray Colares, um dos grandes expoentes da arte contemporânea no Brasil. O livro se intitula “Raimundo Colares e o Fogo
Alterante da Criação”, onde analisa, como “expert” que é, a obra do
grande artista, assim como mostra a vida que ele teve.
Felicidade não é uma pessoa que se promove. Ela é simples.
Sem a menor vaidade, sem nenhuma preocupação em aparecer. Entretanto,
toda estrela de maior dimensão não tem como não ser vista,
contemplada e apreciada.
O seu brilho é tamanho que ele a mostra por si só. Mas, talvez,
mais do que tudo, é um ser humano fora do comum. Profunda, também,
em espiritualidade, bondade, desprendimento e doçura.
É um nome que, provavelmente, sobreviverá a todas as gerações
atuais e vindouras. O que ela tem deixado em obras de arte e literatura
permanecerá para sempre, pois o Tempo é a melhor “peneira”.
Eu tenho a felicidade de tê-la como uma amiga querida e “prima”,
como nos costumamos chamar, por sermos parentes longínquos
pelo lado dos Silveira.
JOSÉ GOMES DE OLIVEIRA
Palmyra Santos Oliveira
Cadeira N. 64
Patrono: José Gomes de Oliveira
Filho primogênito de Manoel Gomes de Oliveira e de dona Laura Pereira dos Santos, José Gomes de Oliveira nasceu no dia 7 (sete) de abril de 1916. Fez o curso primário no Grupo Escolar Gonçalves Chaves e o Curso propedêutico no Instituto Norte Mineiro de Educação, em Montes Claros.
Aos 13 anos ficou órfão de pai e como filho mais velho, teve de trabalhar para auxiliar sua mãe a criar os irmãos que eram cinco.
Trabalhou no comércio “O Vale Quem Tem – Quem não tem não vale nada”, do português Nuno Pereira dono da “Maria Bamba”, uma boneca enorme, carregada por uma pessoa que através de um megafone anunciava os comerciais em 1931 até 1933.
Aprendeu o oficio de alfaiate com o senhor Cecílio de Souza Barbosa, foi funcionário da Prefeitura Municipal e através de José Dias de Macedo (Juca Carteiro) primo de sua mãe, ingressou nos Correios e Telégrafos, como servente em, Montes Claros.
Prestou serviço militar no 10º Regimento de Infantaria, sediado
em Belo Horizonte com a especialidade de soldado sinaleiro observador,
de 1935 a 1936.
Foi porta bandeira e monitor da Patrulha de Cavalos da Associação
de Escoteiros Antônio Gonçalves Figueira, em Montes Claros,
de 1936 a 1940.
Em 20 de outubro de 1940, tomou posse no cargo de Agente
Postal Telegráfico dos Correios e Telégrafos de Porteirinha em cujo
cargo permaneceu até outubro de 1943, quando foi transferido para
Montes Claros, exerceu o mesmo cargo em Rio Pardo de Minas,
Monte Azul e Espinosa.
Fez diversos cursos profissionalizantes, entre os quais o Curso
de Treinamento dos Agentes da reforma Administrativa, Curso de Supervisão
Empresarial e Curso de Inspetor dos Correios e Telégrafos,
ocupando o cargo de Inspetor dos Correios e Telégrafos por dezoito
anos até a sua aposentadoria. Foi superintendente administrativo e
Diretor de Operações da Companhia Telefônica de Montes Claros.
Praticou quase todos os esportes do seu tempo, fundando vários times
não só em Porteirinha como também em Montes Claros, onde
foi membro fundador do Ateneu do qual era campeão de volibol e
de basquete. Foi superintendente do Montes Claros Tênis Clube. Em
suas atividades sociais, foi membro fundador, presidente, diretor e
secretário do Rotary Clube de Montes Claros - Norte. Foi fundador
e primeiro presidente do APAE, em Montes Claros, tendo elaborado
seu estatuto e providenciado sua localização junto aos órgãos competentes.
Como reconhecimento ao seu trabalho foi inaugurado naquela
instituição um anfiteatro com o nome “José Gomes de Oliveira”.
Ele era casado com dona Maria das Dores Guimarães Gomes,
tendo os seguintes filhos: Propércio Gomes Baleeiro (médico – foi Diretor
Secretário da Unimed, em Montes Claros); José Carlos Gomes (bancário aposentado – foi diretor-presidente da Cooperativa de Ensino
de Montes Claros e da Associação Atlética Banco do Brasil); José
Geraldo Gomes (engenheiro e fazendeiro); Eustáquio Wagner Guimarães
Gomes – Administrador de Empresas, bancário aposentado
(foi superintendente do Banco do Brasil, em Minas Gerais); Eduardo
Gomes – médico veterinário, fazendeiro, professor do Colégio Agrícola
e da Universidade Estadual de Montes Claros e Maria Rosália
Guimarães Gomes da Silva, Administradora de Empresas.
José Gomes de Oliveira foi iniciado na Loja Maçônica Deus e
Liberdade, de Montes Claros em 15 de outubro de 1946, tendo sido
elevado a companheiro em 24 de fevereiro de 1947 e mestre em 18
de junho de 1947.
Foi Cavaleiro Rosa Cruz em quatro de maio de 1973.
Foi tesoureiro, secretário e orador da Loja Deus e Liberdade
por diversas vezes e seu venerável por períodos vários. Foi delegado
do Grande Oriente de Minas Gerais, para a 14ª região com sede em
Montes Claros – Minas Gerais.
Foi membro fundador do Supremo Conselho do Grau 33 para
a República Federativa do Brasil, em Belo Horizonte.
Resumindo: alcançou outros títulos como maçom e foi o que
obteve o maior número de títulos honoríficos e condecorações maçônicas,
em Minas Gerais e de outras potências. Foi agraciado com
o título de Cidadão benemérito de Montes Claros, concedido pela
Câmara Municipal, conforme resolução nº 228, de primeiro de setembro
de 1976.
Restaurou algumas lojas maçônicas já extintas e fundou outras
no Norte de Minas. Concluiu a construção do prédio do Palácio Maçônico
Deus e Liberdade, em Montes Claros, em setembro de 1977.
Faleceu em 11 de julho de 1993.
DISCURSO DE POSSE
Petrônio Braz
Cadeira N. 18
Patrono: Brasiliano Braz
Conhecia o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, mas era um conhecimento distante. Ocorreu que, na Fazenda Gabangu, quando me foi outorgada a Medalha “Santos Dumont”, em 2007, assentei-me ao lado da ilustre professora Regina Almeida, mineira de São João do Paraíso, também homenageada, no aguardo dos atos oficiais da outorga. Ali principiamos uma amizade e conversamos muito.
Para minha surpresa, algum tempo depois, recebi da professora Regina Almeida uma correspondência informando-me que havia indicado o meu nome para integrar, como sócio correspondente, o corpo desta Casa de Cultura e pediu-me as informações e documentos complementares necessários.
O convite emocionou-me. À força de tanto imaginar, fui transportado a outra dimensão como o cavaleiro de Cervantes. Iria eu participar, por um convite não buscado, do seleto corpo de luminares da respeitável Casa de João Pinheiro.
João Pinheiro, para os meus guardados da memória, era a próspera
cidade mineira onde residi por quatro anos de boas recordações,
exercendo as funções do cargo de Secretário Geral da Prefeitura Municipal,
na administração do Dr. João Batista Franco, nos anos setenta
do século passado. Não existia de plano, em minha consciência, uma
relação presente entre o nome e o homem – este um dos mais importantes
brasileiros de todos os tempos.
Regularmente investido como sócio correspondente, ingressei
nesta Casa hesitante. Aqui fiz amizades inestimáveis, e adquiri saberes
que não se podem enumerar.
O enaltecido professor Zanoni Eustáquio Roque Neves já era
meu conhecido, com quem tenho uma convivência fraterna. Membro
fundador, como eu, da Academia de Letras, Ciências e Artes do São
Francisco, ele é um cultor das letras, das artes e das ciências. A sua
biografia, o valor de seu trabalho está parcialmente gravado no sítio
eletrônico da Academia e dele extrai-se que ele “nasceu na cidade
de Pirapora”, nas barrancas do Velho Chico, “o grande caminho da
civilização brasileira”, como definido pelo historiador João Ribeiro e
atestado por Euclides da Cunha.
No convívio desta Casa, ressalto a reverência a mim deferida
pelo presidente emérito professor Herbert Sardinha Pinto. Foi ele o
patrono de minha indicação como sócio efetivo e quem levou o meu
nome ao Plenário da Casa. É mister, portanto, que eu relate uma
pequena coincidência, que eu, a essa altura da vida, credito mais à
providência amiga que mero gesto do acaso.
Eu viera para demandar informações sobre a minha posse e,
sem que houvéssemos combinado, encontrei-me com o professor Sardinha
nas escadas de acesso a esta Casa. Disse-me ele que não havia
programado sua vinda naquele dia, mas uma força inexplicável o havia
conduzido até ali.
Conversávamos sobre a posse, quando ele me perguntou quem,
entre os sócios efetivos, iria fazer a minha apresentação e eu disse que ficaria honrado se o professor Zanoni Neves aceitasse a incumbência.
Mal acabara de pronunciar seu nome e eis que aparece, na porta da
sala, a pessoa do meu ilustrado amigo Zanoni Neves! Tinha que acontecer,
porque já estava escrito no Livro do Destino, como querem os
sectários do islamismo, essa misteriosa força que governa o mundo.
Doutos membros da Mesa,
Da estrutura organizacional do Instituto coube-me, por escolha
entre as poucas Cadeiras vagas, a de nº 85, que tem como patronoÁlvaro Astolfo da Silveira e antecessores Simeão Ribeiro Pires e Edir
Carvalho Tenório, três insignes imortais. Eles nos fazem cientes de
que “só temos uma vida, mas podemos ficar na História”.
Dizem que são imortais os que integram um sodalício cultural.
São imortais os que somam valores pessoais a feitos que os distinguem,
entre os comuns. E são imortais porque sublinharam suas passagens
na história de um lugar, de um povo, de uma instituição, por
isso serão sempre lembrados.
A imortalidade depende, conforme sabemos, de atos ou de fatos.
Para tornar-se imortal, Zeus, ao nascer, pediu a Hermes que o
levasse para junto do seio de Hera, quando esta dormia, e o fizesse
mamar. O leite divinal concedeu a Zeus o poder de ser grande entre
os grandes.
Em relação similar, são imortais os humanos que sorveram o
leite de Atena, a deusa grega da sabedoria.
Como repete uma máxima: “A morte não é para sempre; só morre
o que se esquece”. A imortalidade, assim, se constitui não pelo acaso,
mas pela memória de uma existência, que deixou marcas particularizantes.
Lembrando-me de Érico Veríssimo, em “Caminhos Cruzados”,
reconheço que o tempo passa, as pessoas envelhecem, mas seus escritos
os perpetuam. As pessoas nascem, sofrem e morrem, cumprindo um ciclo natural; mas há as que nascem, realizam e eternizam-se. A
arte, caros senhores e senhoras, é um meio de eternizar o homem.
O renomado escritor Eça de Queirós no “Prefácio dos Azulejos
do Conde de Arnoso” sentencia: “A arte é tudo - tudo o resto é nada. Só
um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo. Leônidas ou Péricles
não bastariam para que a velha Grécia ainda vivesse, nova e radiosa, nos
nossos espíritos: foi-lhe preciso ter Aristófanes e Ésquilo. Tudo é efêmero e
oco nas sociedades - sobretudo o que nelas mais nos deslumbra. Podes-me
tu dizer quem foram, no tempo de Shakespeare, os grandes banqueiros e as
formosas mulheres? Onde estão os sacos de ouro deles e o rolar do seu luxo?
Onde estão os olhos claros delas? Onde estão as rosas de York que floriram
então? Mas Shakespeare está realmente tão vivo como quando, no estreito
tablado do Globe, ele dependurava a lanterna que devia ser a Lua, triste
e amorosamente invocada, alumiando o jardim dos Capuletos. Está vivo
de uma vida melhor, porque o seu espírito fulge com um sereno e contínuo
esplendor, sem que o perturbem mais as humilhantes misérias da carne!”.
Desta forma, o professor Álvaro Astolfo da Silveira está vivo
sem que o perturbem as misérias da carne. Como Patrono, ilumina
para sempre a Cadeira nº 85 da Casa de João Pinheiro.
Ele é mineiro de Passos, de família ilustre, onde nasceu em
1867, na vigência plena do glorioso Império brasileiro. Engenheiro
pela Escola de Minas de Ouro Preto ocupou, já no início de sua carreira
profissional, a partir de 1892, as funções de geólogo da Estrada
de Ferro Central do Brasil. Mas ele não foi uma pessoa acomodada e
alçou vôos mais altos. Já em 1895 era ele Chefe da Comissão Geográfica
de Minas Gerais. Foi diretor da Imprensa Oficial entre os anos de
1904 a 1907, para logo depois assumir a chefia técnica da Diretoria
de Agricultura do Estado, tendo se aposentado, em 1931, como Diretor
da Comissão Geográfica e Geológica de Minas Gerais.
Homem das letras, botânico, geólogo e naturalista, intelectual
de larga visão e competência cultural, publicou várias obras técnicas e literárias, escritas a mão, com o uso da caneta tinteiro. Tantas que
seria cansativo enumerar.
Ele foi membro da Academia Mineira de Letras, da qual foi
presidente, reeleito por três mandatos, entre 1915 e 1920, e é Patrono
da Cadeira nº 85 do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais,
tornando-se duplamente imortal.
Segundo a valorosa lição de Machado de Assis, em mensagem
no Livro de Ouro, em homenagem a Eduardo Lemos: “uma palavraé pouco, para dizer o que ele merece; uma linha é demais”. E declara o
mestre da língua pátria que, se não pudermos dizer tudo, é preferível
o aperto de mão.
Não posso, entretanto, apertar a mão de Álvaro Astolfo da Silveira.
Mas sou capaz de conhecer seus feitos e sua história. E posso
ler a letra que traçou em seus livros, seu acento eterno na História de
Minas Gerais.
Hoje estou eu aqui, na simplicidade de um mineiro do Norte.
Trago ao convívio dos ínclitos confrades e confreiras a fala de um sertanejo
que, por um processo hipocorístico de simplificação, diz cosca
em lugar de cócegas, toá em vez de tauá, abobra em lugar de abóbora;
um sertanejo que, guardando a forma do português arcaico, diz menhã
em vez de manhã, somana em lugar de semana, guaiaba, em lugar
de goiaba, vocábulos que guardam a grafia anterior ao metaplasmo
por dissimilação vocálica; que fala coresma, em lugar de quaresma; que
usa como advérbio a terceira pessoa do singular do presente do indicativo
do verbo andar: andou que cai – quase cai; que diz pé-de-manga
e pé-de-laranja, em lugar de mangueira ou laranjeira.
Esse homem rude e de vocabulário pitoresco, por meio de uma
evolução semântica inconsciente, emprega acesso, ingresso, chegada,
com a acepção de convulsão, síncope, ataque epiléptico; açoitar, que
significa bater, fustigar, com o sentido de tanger longe, arremessar;
que diz barrear, atravessar com barras, para indicar o romper do dia, a aurora; que se utiliza do verbete remeter, mandar, enviar, para indicar
o ato de chifrar, agredir com os chifres; que transformou o verbo pensar,
fazer reflexões, refletir, raciocinar em aplicação local de remédio
em ferida; que se utiliza do verbo delatar, denunciar alguém como autor
de um crime, com o significado de demorar, retardar; para quem
romper, fazer em pedaços, rasgar, é começar a andar, seguir em frente.
Assim, chego falando a linguagem do povo do Norte de Minas,
experiente em anos e leituras, mas “rompendo em frente” com entusiasmo
de menino novo. Como afirmou José Lins do Rego em seu
discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, “não me complicarão
a sintaxe a presença de sábios e os rigores dos que manejam o estilo”.
Esse momento conforta-me, pois o que fiz na construção de
uma vida não foi em vão. Esse momento, reportando novamente às
palavras de Machado de Assis, é “a gloria que fica, eleva, honra e consola”.
E quem seria eu, se não me lembrasse daqueles a quem amei e
amo? Meus pais Brasiliano Braz e Maria Augusta, no silêncio de seus
jazigos, estão sorrindo. Minha esposa, meus filhos, netos e bisnetos
estão eufóricos. Meus amigos estão felizes. Eu, entre tantas emoções
da hora, sinto-me acalentado pela lembrança, exaltado pela honraria,
emocionado por frequentar esta casa ao lado dos que são grandes!
Senhores e senhoras.
Que nome devemos dar ao orgulho sem vaidades vãs, às alegrias
maiores, à comoção verdadeira? Podem faltar palavras a esse sertanejo
simples, mas orgulhoso, mas não me falta a consciência de que são
momentos como este que tecem o fio comprido da vida e que devo
vivê-lo segundo os princípios de Horácio: carpe diem quam minimum
credula postero.
Há dias, como afirmou Emerson, “em que o mundo alcança a
perfeição, quando o ar, os corpos celestes e a Terra estão em harmonia,
como se a Natureza se regozijasse com os seus filhos”. Hoje é um desses
dias
Dos ensinamentos de Alexandre Graham Bell extrai-se: “Nunca
ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde outros foram”.
Mas, certamente que o bom caminho poderá nos levar às outras
diretrizes!
Pela Cadeira nº 85, que doravante ocuparei, passaram dois nomes
ilustres: Simeão Ribeiro Pires e Edir Carvalho Tenório. Humildemente
pergunto-lhes: Como deixar de seguir seus passos? Que eu
possa pisar suas pegadas e servir-me de suas caminhadas...
Senhor Presidente,
A terra de Montes Claros, celeiro de cultores das letras, deu
a Minas e ao Brasil a figura ímpar de Simeão Ribeiro Pires, um dos
fundadores da nossa Academia Montesclarense de Letras.
Ele diplomou-se em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia
da Universidade Estadual de Minas Gerais, em 1943. Foi presidente
do Diretório dos Estudantes de Engenharia, Aspirante Oficial
do Exercito pelo CPOR. Premiado na Convenção Nacional de Engenheiros
com a monografia “Ensino da Engenharia”. Ocupou o cargo
de Oficial Técnico da Rede Mineira de Viação.
Recebeu, dentre outras, as comendas: Medalha de Ouro – Mérito
Industrial – da Federação das Indústrias de Minas Gerais no ano
de 1967 e a Medalha da Inconfidência do Governo do Estado de
Minas Gerais. Professor por concurso público na Escola Estadual“Prof. Plínio Ribeiro” de Montes Claros e foi professor de Estudos de
Problemas Brasileiros da Faculdade de Direito de Montes Claros. Homem
de elevado espírito público, grande tribuno. Foi diretor do Colégio
Tiradentes da Polícia Minas de Minas Gerais no ano de 1964,
Como pecuarista foi diretor do Frigonorte. Como político foi
prefeito e vereador em Montes Claros, sendo uma das principais personalidades
da história do Município. Como pesquisador, dedicou
sua atenção ao passado da região norte-mineira, que Wanderlino Arruda
qualifica como “de sonhos e de sonhadores”.
Ele é Patrono da Cadeira nº 93 do Instituto Histórico e Geográfico
de Montes Claros, a Casa de Simeão Ribeiro Pires.
Sinto-me culturalmente realizado ao ocupar, nesta Casa, lugar
por ele anteriormente honrado.
Não conheci Edir Carvalho Tenório, mas para se conhecer seu
valor não há necessidade de ter conhecido o homem.
Verifico, pelo seu currículo que integra os anais desta Casa, que
ele internacionalizou-se com Mestrado na Universidade de Maryland,
nos Estados Unidos, mas foi, principalmente, um brasileiro, um mineiro.
Ele integra a Galeria dos Imortais da Academia de Letras do
Brasil – Seccional do Estado de Minas Gerais, onde foi empossado in
memoriam. Exerceu inúmeras atividades públicas e privadas, mas foi,
antes de tudo, poeta,
Sócio efetivo desta Casa, empossado em 7 de abril de 2001, e
da Arcádia de Minas Gerais, empossado em 4 de dezembro de 2002.
Senhor Presidente,
Entre tantos a agradecer, expresso minha gratidão, com especial
reverência, à professora Regina Almeida, ao professor Herbert Sardinha
Pinto e ao professor Zanoni Eustáquio Roque Neves. À primeira
por ter aberto para mim as portas desta Casa. Ao segundo, pela demonstrada
consideração ao indicar meu nome para integrar a gloriosa
Casa de João Pinheiro como sócio efetivo e, ao terceiro, pelas inolvidáveis
palavras com que me fez conhecido pelo seleto corpo desta
Casa.
Aos amigos, que me honraram com suas preciosas presenças, o
meu “muito obrigado”.
Aos parentes que aqui estão a “minha benção”.
Aos confrades presentes os meus respeitos e a minha consideração.
Na pessoa de Cássia Maria, o meu abraço fraterno aos atenciosos
servidores da Casa.
Estejam certos de que vim para aprender, mas, certamente, alguma
coisa tenho a oferecer. Sinto-me afetivamente acolhido por todos
os presentes e por isso, antes de tudo, devo dizer que hoje estou
aqui, confirmando um dito euclidiano: como um sertanejo forte.
Freud já observara: “Como fica forte uma pessoa quando está segura
de ser amada!” Esse amor justifica tudo.
Muito obrigado.
O CORDEL DO
RIO SÃO FRANCISCO
Téo Azevedo
Cadeira N. 90
Patrono: Romeu Barcelos Costa
Viva o Rio São Francisco
O rio dos brasileiros
Das nascentes Samburá
Pois ele nasce em Medeiros
Mineiro de nascimento
Brasileiro o coração
E por isso o Velho Chico
É o Rio Integração
A Canastra é patrimônio
Que está em nossa história
Na Casca d’anta da vida
É o resplendor da glória
E lá na Foz ele encanta
Vendo o mar vai renascer
O bendito franciscano
Nas águas do seu viver |
Município de São Roque
Que fica sua nascente
A Canastra é um baú
Na língua da nossa gente
Já estive nessas bandas
No Planalto das Colinas
Contemplei essas belezas
Bebi águas cristalinas
Vou falar do São Francisco
Canto igual um sabiá
Para o índio Rio Grande
Com o nome Opará
Ou então o rio mar
Lá do alto das Gerais
Ele vai cortando terras
Da caatinga aos carrascais |
Dia quatro de Outubro
Em mil quinhentos e um
Chega ao grande estuário
Como uma bala dun-dum
Eram cinco caravelas
Portuguesas nessa trova
E quem comandava a frota
Era o João de Nova
O piloto, cosmográfico
Que seguia toda trilha
Era Américo Vespúcio
Que encontrou maravilha
O nome de São Francisco
Foi lembrado com alegria
Assim batizaram o rio
Nome do santo do dia
Cerca de três mil quilômetros
Da nascente ao oceano
Desemboca no Atlântico
Com seu jeito soberano
Quinto rio brasileiro
Falando de extensão
Décimo oitavo no mundo
O rio da Integração
Um rio brasileiríssimo
Com seu jeito tão sutil
Nasce e morre em nossa terra
É o maior do Brasil
O povo norte-mineiro
Com um sonho bem arisco
Batizou a região
A Terra do São Francisco |
Dividido em três seções
E geograficamente
“Baixo” até o Juazeiro
Explico corretamente
“Médio” é de Juazeiro
Até chegar Pirapora
Daí até a nascente
Que o “Alto” se aflora
Ele banha cinco estados
E nasce em Minas Gerais
Lá na Serra da Canastra
Onde é bonito demais
Ele passa na Bahia
E o solo pernambucano
De Sergipe a Alagoas
Velho Chico, rio humano
Seiscentos quarenta mil
Quilômetros que ele tem
Tudo isso é seu vale
Terras que ele faz o bem
Quando falo nesse rio
Eu me sinto tão feliz
A grandeza em dose dupla
São Francisco de Assis
Os primeiros habitantes
Os índios Acarujá
Amoipirá, Amipira
Mirim e Massacará
Cururu e Cariri
Xacriabá, Caiapó
Ponta, Crixá e Guahiba
Goianá e Crafundó |
Em vinte e nove de março
Do ano mil e quinhentos
Quarenta, era novembro
Faço esclarecimentos
Chega o Tomé de Souza
Lá nas terras da Bahia
Primeiro governador
Da colônia e freguesia
Era o ciclo do gado
Ou o tempo dos currais
Deram aos casais escravos
Morando pelos beirais
Dez novilhos e um touro
De equinos um casal
Nas cidades ribeirinhas
Colonização geral
Já criaram duas casas
Para comandar o rio
Margem esquerda, Pernambuco
E foi de fio a pavio
Até Rio Paracatu
O Garcia D’Ávila tava
O sistema português
No sertão que imperava
E pela margem direita
Pelas bandas da Bahia
Antônio Guedes de Brito
Comandou com maestria
Lá do morro do chapéu
Já falo no meu repente
Até no Rio das Velhas
Em Ouro Preto, a nascente |
Região do alto médio
O primeiro a chegar
Expedição, Espinosa
Em junho vou declarar
No ano mil e quinhentos
E mais cinquenta e quatro
Saiu de Porto Seguro
E assim foi o teatro
Ao sair do litoral
Tomou outra direção
Vale do Jequitinhonha
Serra Geral no sertão
No vale do São Francisco
Onde tem muito pequi
Barras dos rios Pandeiros
Mangas e o Mangaí
Mil seiscentos e cinquenta
Bandeirante furioso
Chegava lá de São Paulo
Nome Matias Cardoso
Os índios foram expulsos
Das beiras do São Francisco
Ou então viraram escravos
Um mestre de Campo arisco
Domingos Prado Vieira
Capitão Manoel Francisco
E também Manuel Pires
Maciel foi um corisco
É considerado herói
Batalha de São Romão
Da igreja da matriz
Ele fez a construção |
Igreja Nossa Senhora
Milagrosa do Amparo
É mais velha de Minas
Sendo um caso muito raro
Uma região bonita
Hospitaleira e agrária
Que é muito conhecida
Pelo nome Januária
Isabel Maria Guedes
Filha do mestre-de-campo
Antônio Guedes de Brito
Sucessora nesse trampo
Era latifundiária
Manuel Nunes Viana
São Francisco a Guaicuí
Comandava soberana
Foi do século dezessete
Até o século dezoito
Tinha diamante e ouro
Era um tempo muito afoito
Quem sustentava o garimpo
Com muito peixe salgado
Carne-seca e cereais
O velho Chico, chapado
Eu vou falar de pessoas
Fazem parte dessa história
E do nosso São Francisco
Na cantiga oratória
Militão Plácido de França |
Antunes, pra completar
E de Rodrigues José
Magalhães pra terminar
O Antilófio Castelo
Branco e o coronel
Clemente Aparício
Duarte Filho fiel
João Antunes e João Duque
E Franklin Lins Abuquerque
Francisco Leóbas França
Antunes meu verso cerque
Havia o coronel Ramos
E o coronel Bem-Bem
Também o Quintino Vargas
Não posso esquecer ninguém
O Antônio Nascimento
E Joaquim Lúcio Cardoso
Personagens da história
Nesse cordel tão garboso
Falarei de Oscar Caetano
E também Jovem da Mata
Salve o Saul Martins
Que Antônio Dó retrata
E Brasiliano Brás
Petrônio é do coração
São alguns dos patrimônios
Que tem essa região
São várias embarcações
Cada de uma maneira
Canoa de um tronco só |
É de tradição ribeira
Paquete é um outro tipo
Duma canoa gigante
Transportava gente e carga
De uma forma importante
Ajoujo, várias canoas
Somadas em uma só
Transporta até animais
Sem nenhum forrobodó
E a barca sergipana
Também é bastante usada
Tem apelido de ema
Tapa gato na jogada
Juazeiro a Januária
Era a Carreira Grande
Movidas pelos remeiros
Pelo rio se expande
Era de doze a catorze
Que no remo dava o duro
Batalhava no trabalho
Pelo dia ou no escuro
João Francisco de Souza
Que foi um grande remeiro
Pirapora te saudou
De um jeito hospitaleiro
A carranca é a figura
O nome de antigamente
Apelido de carranca
É uma coisa mais recente |
Mestre Francisco Biquiba
O meu verso, uma loa
Mais famoso carranqueiro
Que é figura de proa
Dona Ana das Carrancas
E também Roque Santeiro
O Davi Miranda Filho
Sabino, torrão mineiro
Dividido em cinco partes
A sua navegação
Do Atlântico a Piranhas
Eu falo com precisão
Duzentos e vinte e oito
Quilômetros que tem por lá
E partindo de Piranhas
Chegando até Jatobá
Esse trecho que falei
Já dá cento e vinte e oito
E não é nem navegável
Pois o rio é meio afoito
Paulo Afonso tá na frente
A represa é de primeira
Lembro Delmiro Gouveia
Na usina Brasileira
Partindo de Jatobá
Sant’ana do Sobradinho
Que vai até Pirapora
No meu verso de alinho
Mil trezentos vinte e oito
Quilômetros pra navegar
Maior trecho navegável
Cenário espetacular |
Pirapora nas nascentes
Já tem muita corredeira
Represa de Três Marias
Usina da luz mineira
São oitocentos quilômetros
Esse trecho que falei
Descrever o São Francisco
É das coisas que eu sei
Primeira navegação
Falarei no meu enredo
De um barco a vapor
De Piranhas a Penedo
Isso mil e oitocentos
Setenta e um com carinho
E no médio São Francisco
Tinha Saldanha Marinho
Foi montado em Sabará
Rio das Velhas desceu
Entrando no São Francisco
Juazeiro o trilho seu
Vapor Presidente Dantas
Do governo da Bahia
Mandaram pra Juazeiro
E foi aquela alegria
Mil oitocentos setenta
Completando com mais dois
Foi transportado por terra
E também carros de bois
Mandado de Salvador
Chegou lá em Juazeiro
E aonde entrou nas águas
Num trabalho altaneiro |
O trecho de Juazeiro
Até em Minas Gerais
Barra do Rio das Velhas
É lugar longe demais
E a viação Brasil
Nesse trecho, pioneira
Mil oitocentos e setenta
Uma história verdadeira
Mil novecentos e dois
No meu verso falo agora
Chega o primeiro vapor
Na cidade Pirapora
Falarei de três empresas
Maiores, navegação
Tem a Viação Baiana
Da Brasil a Sucessão
Companhia Industrial
Viação de Pirapora
Sede no Rio de Janeiro
Eu improvisei na hora
Na Navegação Mineira
Desse São Francisco eu falo
Com a sede em Pirapora
Tiro a rima até o talo
Nos vapores da baiana
Teve o Saldanha Marinho
O Barão de Cotegipe
Com apito de alinho
O lindo Mata Machado
E o Presidente Dantas
Também o Antônio Olinto
De belezas que são tantas |
O Cordeiro de Miranda
E também Costa Pereira
Junto ao Rodrigo Silva
E Severino Vieira
Nilton Prado e São Paulo
O Djalma e Juazeiro
E o Delsuc Moscoso
É tudo firme e certeiro
O Juracy Magalhães
Terminei esses roteiros
Só tá faltando falar
De mais outros dois cargueiros
E da Viação Baiana
No meu verso em paralelo
Tem o Fernandes da Cunha
E também Jansen de Melo
Falo da navegação
Mineira do São Francisco
Novecentos, vinte e cinco
O meu verso é um petisco
O engenheiro Halfed
Um vapor de expressão
Junto com Raul Soares
Chamado de carretão
O Paraíso das Damas
Sempre foi Wenceslau Brás
Governador Valadares
Um vapor muito capaz
Apelido Besta Brava
Foi do Antônio Nascimento
Eu vou falar dos cargueiros
Fazendo esclarecimento |
Curvelo e Baependí
Afonso Arinos, Mauá
Paracatu, Fernão Dias
O Paracatuzinho lá
Companhia Industrial
E Viação Pirapora
Vou falar da sua frota
Já começo tudo agora
Mil novecentos e dezessete
A data da fundação
Tinha o Vapor São Francisco
São Salvador no eitão
E o Otávio Carneiro
Santa Clara naufragou
O Benjamim Guimarães
Foi o único que ficou
Júlio Vitor e Iguassú
Coronel Ramos, Bahia
Junto de Francisco Bispo
Sertanejo de alegria
No ano cinquenta e oito
Serviço navegação
E do Rio São Francisco
Teve a sua criação
No ano sessenta e três
A Franave foi criada
Cia de navegação
Do São Francisco tachada
Criaram as barranqueiras
Vieram rebocadores
E o comboio de chatas
Com óleos poluidores |
E no tempo das vazantes
Era tudo diferente
Havia mais opções
Numa agricultura quente
Veio o tempo das barragens
E também irrigação
Melhorou em umas coisas
Mas causou destruição
Mil oitocentos noventa
E seis para completar
Chega a Leste Brasileira
Para o Brasil desbravar
Essa estrada de ferro
Chega lá em Juazeiro
Liga o Vale a Salvador
Num trabalho pioneiro
Mil novecentos e dez
Outra data que se conte
Foi o Médio São Francisco
Ligado a Belo Horizonte
Com a Central do Brasil
Chega ao Rio de Janeiro
Vai fazendo a ligação
Ao sul do Brasil inteiro
O tenente Armando Braga
Poeta compositor
Foi um capitão dos portos
Como também foi pintor
Um agente da marinha
A mercante em Pirapora
Numa paixão pelo rio
Pois o Norte ele adora |
Mil novecentos e treze
Nos meus versos altaneiros
Quando é inaugurada
Escola de marinheiros
O Tancredo de Alcântara
Gomes é o cidadão
Foi lá em Buritizeiro
Sob sua direção
A agência da Marinha
Instalada em Juazeiro
No ano de dezenove
No meu canto tão mateiro
Capitania dos Portos
Vinte e seis ela mudou
Na cidade Juazeiro
Pois foi onde ela ficou
Também a Capitania
Dos Portos do São Francisco
Mil novecentos e vinte e nove
Pirapora nesse risco
Depois mudaram o nome
Capitania Fluvial
Do São Francisco versei
Nesse cordel tão legal
Tem agência em Bom Jesus
Da Lapa uma alegria
É a terra dos milagres
Muita fé e romaria
Outra agência em Juazeiro
Essa saudação é minha
E o progresso do Rio
Teve ajuda da marinha |
Diocese de Mariana
Primeira em Minas Gerais
Foi em doze de abril
Tempo que não volta mais
Ano mil e setecentos
Quarenta e cinco é a data
O Frei Manuel da Cruz
A lembrança me retrata
Foi bispo de São Luiz
Das bandas do Maranhão
No dia três de agosto
Deixa aquela região
Quarenta e sete chegou
Lá na região da Barra
E encontra o Rio Grande
No São Francisco se amarra
Depois de chegar a Barra
Completo do Guaicuí
Viaja no Rio das Velhas
Se embrenhava por ali
Dia vinte de setembro
Ele chega a Sabará
Em quatorze de outubro
Ouro Preto tá por lá
Era no século dezoito
O meu verso fica rico
Cientistas alemães
Visitaram o Velho Chico
Spix e o Von Martius
Chegaram lá na nascente
Novecentos dezenove
Com uma pesquisa quente |
O engenheiro francês
Era Emmanuel Liais
Também fez esse trajeto
Em Minas com muita fé
E a nossa integração
Fascina até estrangeiro
Patrimônio do Brasil
E orgulho do mineiro
E o Henrique Guilherme
Fernando Halfed em proa
Percorreu o São Francisco
Navegando na canoa
Mil oitocentos cinquenta
Quatro ele começou
E já em cinquenta e dois
Que o projeto encerrou
Barra do Rio das Velhas
Até a foz percorreu
Eram estudos da coroa
A pesquisa aconteceu
Inglês Richard Burton
Em dezoito, sete, sete
Partindo de Sabará
Pegou firme no basquete
E no Oceano Atlântico
Ele chega em dezembro
Na história de Diniz
Que eu li ainda lembro
Esse rio dos milagres
E do povo do sertão
É glossado em muitos versos
No ABC da canção |
Frei Luís Flávio também
Fez viagem bem recente
Pelos caminhos das águas
Com o seu projeto em frente
Muita gente se esforça
E vai de fio a pavio
Numa luta ecológica
Pra salvar o nosso rio
Do vale do São Francisco
Foi criada a comissão
No ano quarenta e sete
Dutra foi a salvação
A sigla CODEVASF
No meu verso tão perene
No governo JK
Foi criada a SUDENE
Eu irei falar das lendas
E também das tradições
No rio e nas lagoas
Ribeirinhas dos sertões
Falo do Caboclo d’água
É um moleque traquina
E gosta de tomar pinga
Essa foi a sua sina
Apelidos, Bicho d’água
E Negro d’água também
Sendo baixinho e parrudo
Gosta de comer xerém
Adora banho de sol
E é firme na mutreta
E sempre tá nas coroas
Gosta de fazer careta |
Vou falar do Minhocão
Cobra grande e fedorenta
Muito valente e faminta
O que vem ela rebenta
Pois ataca qualquer barco
É um pavor no sertão
Come gente e come bicho
É lenda do Minhocão
Vive em uma garrafa
Famaliar tem mister
Em troca de uma alma
Dá riqueza e dá mulher
É muito bom de conversa
Ilude com muita calma
É agente do inferno
Somente pra arranjar alma
Falarei do Romãozinho
É um diabo menino
Maltratou a sua mãe
Com seu coração ferino
Ela jogou uma praga
Foi quando ele viveu
E vive atentando aos outros
Igualmente um fariseu
E também tem a Mãe d’água
Ou a Sereia do rio
Que assusta os barranqueiros
Quer na chuva ou no estio
Corpo metade de peixe
Outra metade, mulher
É bonita e atraente
Esta lenda é um mister |
A Serpente de Asas Longas
Que tem o corpo emplumado
E em Bom Jesus da Lapa
Onde o povo tem rezado
Ofício a Nossa Senhora
Pra ela ficar na gruta
Que senão acaba o mundo
Com a sua força bruta
Na gruta de Bom Jesus
Padre Francisco Mendonça
Ele morava na gruta
Atacado pela onça
A bicha tinha um estrepe
Bem na pata dianteira
O padre curou a onça
Virou sua companheira
E a lenda do Presente
Grande rio São Francisco
Que reuniu todo povo
Na Canastra com aprisco
Que Jesus te deu o rio
Com amor e com prazer
Que ninguém seria rico
De fome ninguém morrer
Lenda do Boi Mandingueiro
Que é feroz e erado
Urra no meio da noite
É chamado boi rezado
Tem a lenda do Pau Lepa
Pau Diabo ou Pau Capeta
Se passar debaixo dele
Fica perdido e zambeta |
E o Vapor Assombrado
Que aparece à meia-noite
Com suas luzes acesas
Apitando e no açoite
A lenda do Canoeiro
Sem o remo navegando
Rio abaixo, rio acima
Para os bichos cantando
A lenda do Rio Abaixo
Do Diabo Violeiro
Lá em Maria da Cruz
Bandas do sertão mineiro
A lenda da Mãe do Ouro
Uma mulher de nobreza
No clarão meio do rio
Aparece com certeza
A lenda de Antônio Dó
Cangaceiro do Sertão
Só puderam matar ele
Com uma mão de pilão
Tem a lenda de Rotil
Que pelo povo é contada
Quando tava no perigo
Sumia na emboscada
A lenda do São Francisco
Esse santo de Assis
Uma seca em sua terra
Deixou o povo infeliz
Ele acabou com a seca
Com água do São Francisco
O rio leva seu nome
Por esse feitio arisco |
No vale do São Francisco
Caatingas, pantanais
Tem cerrado e tabuleiro
Mata seca e carrascais
Gerais, vazante a vereda
Do grotão ao marmeleiro
Capoeira e quissaça
Da lagoa e atoleiro
Tem piranha e o dourado
Bagre, pacu e mandim
Piaba e Curimatá
Do piau ao surubim
Macaco, soim, veado
Capivara e o tatu
Cotia, paca e bandeira
Da codorna ao jacu
Tem plantas medicinais
Quina, boldo e o gervão
Ruibarbo e carapiá
Junco e barbatimão
Milhoró, guiné, jalapa
Fedegoso e pusteneira
Arnica e pau de colher
Caipó e dedaleira
Tem o homem tabaréu
Capiau ou catrumano
Matuto ou Jeca Tatu
Sertanejo soberano
Simples e trabalhador
Muito honesto e tão gentil
A cultura popular
O retrato do Brasil |
No vale do São Francisco
Tem folia e o congado
Chula, guaiano e forró
A Novena e recortado
Caboclinho e catopé
Cavalhada e carneiro
Lundu, calango e parcela
Marujada e seresteiro
Incelença e São Gonçalo
As festanças da fogueira
A ladainha e novena
Pau de fita e rezadeira
O vaqueiro encourado
De guarda-peito e gibão
Temerosos no cacete
Zé Coco do Riachão
Tem cagaita e pitomba Ananaz e
buriti
Siriguela e cajarana
Mutamba e bacu-pari
Umbu, panã e cajú
Goiaba e maracujá
Catolé e murici
Manga, pinha e cajá
Vinho de primeiro mundo
Uva boa pra chupar
Fruta-pão e o caqui
Melão pra saborear
Artesanato de couro
O barro, pano e madeira
Rezador e benzedor
E muita mulher rendeira |
Tudo isso que falei
Nos meus versos soberanos
Domingos Diniz falou
E eu segui alguns planos
Ele pesquisou o Ávila
Lins e o Burton convém
O Zanoni e o Saul
Braziliano também
Saint Hilaire e o Silva
Steil, Rocha e Pardal
O Vasconcelos também
O Diniz foi sem igual
Eu encontrei no Corrente
Um jornal de Pirapora
Trinta, maio, de dois, um
Eu encerro tudo agora
Sobre a transposição
O debate é acirrado
Qual lado está certo
E quem é que está errado
Precisa haver um consenso
Pra ninguém ser perdedor
O galho que tem espinho
Também pode ter uma flor
Repartir o pão é certo
E a água ainda mais
Pois quem molha o cerrado
Pode molhar carrascais
Dar um pouco a quem não tem
É cumprir nosso dever
Se não existe o que dar
O que se pode fazer |
Somos irmãos cá da terra
E filhos do mesmo país
A crença é de cada um
Com direito a ser feliz
A água é um bem de todos
Em todos os dias da lida
O bem se irmana do bem
Com gotas que molham a vida
E são quinhentos e quatro
Municípios pelo rio
Vinte milhões de pessoas
É um grande desafio
Trazendo vida ao povo
Sofrido lá do sertão
Com a chuva ou com estio
São Francisco é salvação
Eu agradeço a “Janus”
Do latim porta ou janela
São cento e vinte e cinco
Quilômetros que tem ela
Metragem de beira rio
Nossa Januária tem
Sendo a maior do rio
E não perde pra ninguém
Viva o Maurílio Arruda
Pessoa extraordinária
Catrumano barranqueiro
Poeta de Januária
Salve o Cleuber Carneiro
Deniston Diamantino |
E a Casa da Memória
Tem trabalho muito fino
Dona Júlia lavadeira
Eu lembro com emoção
Também o Manoel Arruda
O querido sacristão
Afonso do Sindicato
E o Santo Vazanteiro
Salve o Antônio Emílio
O grande escritor mineiro
Nossa gente catrumana
Povo do Norte de Minas
Faz parte o Jequitinhonha |
Do cerrado às campinas
Um viva ao São Francisco
Nossa região agrária
Nossa bênção em poesia
À querida Januária.
Na raiz da poesia
Nunca perdi o enredo
Não esqueça este nome
Poeta Téo Azevedo
Cantador e violeiro
Alto Belo mano a mano
Filho do Norte de Minas
Um cidadão catrumano |
CANTO DA PERENE LEMBRANÇA
UM ELOGIO A WALDEMAR VERSIANI DOS ANJOS
Virgínia de Abreu e Paula
Cadeira N. 99
Patrono: Waldemar Versiani dos Anjos
Em torno da mesa de pereiro branco, larga e comprida, cabiam os quatorze filhos e os parentes que se criavam na casa...” Assim tem início o livro “A Menina do Sobrado, de autoria de Cyro dos Anjos. Quatorze filhos! Um deles recebeu o nome de Waldemar. Tornou-se médico, e também deixou sua marca na literatura como seu irmão Cyro.
O belo chalé que abrigava essa numerosa família tradicional situava-se na Praça Dr. Carlos Versiani, o primeiro médico da cidade, avô da criançada. Como podemos ver, uma família de grande importância histórica sendo que o pai, Antônio Versiani dos Anjos, fazendeiro e comerciante, vem a ser presidente da Câmara numa época sem prefeitos. Eu cresci rodeada por eles devido à camaradagem que tinham com meus pais, sem me dar conta de estar vivendo numa época naturalmente cultural e que, portanto, era um privilégio tal convivência. Nos primeiros anos de minha vida, morava eu na Rua Simeão Ribeiro e frequentava a antiga residência dos Versiani dos Anjos a apenas um quarteirão de distância de minha casa. Não mais moravamali. Mas o chalé permanecia ornamentando a praça com o nome de
Gê Bar, onde muitas vezes eu entrava com a finalidade de comprar
guloseimas. Não me passava pela cabeça que teriam a audácia de derrubá-lo para ali erguerem um feio edifício de apartamentos. Nada há
nada ali, nem mesmo uma placa, lembrando toda a história contada
com tanta beleza pelos dois irmãos que ali viveram; Cyro e Waldemar.
Quanta ingratidão. Quanta cegueira.
Os outros irmãos também deram sua contribuição para nossa
História. Na esquina da Simeão Ribeiro com Governador Valadares,
havia o Bar do Norte, ponto dos intelectuais da cidade e pertencente
a outros dos irmãos: Tito. Ele possuía ainda a “Bomba de Seu Tito”,
na Afonso Pena. Parecia um castelinho. Meu lugar preferido para esconder-me nos brinquedos pelas ruas vazias dos anos 50. Nunca fui
encontrada. O prédio foi devidamente derrubado, assim com a residência
de Seu Tito, pai de Marília, minha confreira na Academia
Feminina de Letras. Nada de bonito ou de importante para a cidade
foi erguido no lugar. Parece até um complô para apagar a riqueza que
possuíamos, sem deixar o menor rastro.
Benjamim era outros dos irmãos dos Anjos. Foram muitos
passeios e festas em sua fazenda. Benjamim estava sempre presente nos
famosos serões montes-clarenses, um tipo de reunião amiga e alegre que
meu pai sonhou preservar ao criar o Centro de Tradições Mineiras e
que não teve a apreciação necessária para sua manutenção após o
seu falecimento. Entre os momentos marcantes de minha infância estão
esses serões, onde declamavam, faziam repentes, jogavam versos,
dançavam lundu e corta jaca. A voz de Benjamim ficou para sempre na
minha memória cantando de peito aberto: “Se a perpétua cheirasse,
seria a rainha das flores...”
No ano de cinquenta e cinco, passo a residir na Av. Cel. Prates
vindo então a ser vizinha das “meninas” Versiani dos anjos. Elas moravam
na Presidente Vargas numa casa linda com jardim florido. Claro
que foi derrubada dando lugar para mais um caixote sem importância. Carlotinha, por ser deficiente, recebia os cuidados de Maria, uma
senhora contratada para dela cuidar. Estavam sempre no alpendre
(ah, as casas com alpendres, que encanto) vendo o pouco movimento.
Penso que Alice era a mais velha delas. Parecia sentir mais frio que o
normal, usando casacos de frio mesmo no verão. Pelo menos é assim
que dela me lembro. Costumava me perguntar: “Não está com frio?”
Isso porque, ao contrário dela, raramente usava paletó durante o dia.
Relembro agora a Gabriela, conhecida como Biela, responsável pelo
harmônio da igreja Matriz, acompanhando o coral. Como esquecer
aquela manhã quando, por engano, as meninas da Cruzadinha, entoaram
a música “Ela é Santa” acrescentando a sílaba bi, saindo assim: “Biela é pura, Biela é santa, Biela é imaculada...” Agora podem imaginar
minha alegria ao receber de presente o nome de Waldemar, um
dos quatorze filhos, como meu patrono no Instituto Histórico Geográfico
de Montes Claros. É com emoção que deixo aqui um pouco
de suas atividades nesse mundo estranho.
Nasceu em 1901 em Montes Claros onde fez seus primeiros
estudos. Filho de Antônio Pereira dos Anjos e Carlota Veloso dos
Anjos. Na juventude vai para Belo Horizonte onde faz os exames
parcelados e forma-se como médico pela Faculdade de Medicina da
Universidade de Minas Gerais. A formatura acontece em 1928 vindo
clinicar em nossa cidade por algum tempo. Logo segue para chefiar o
Posto de Higiene de São João Evangelista. Ao voltar ocupa o cargo de
chefe do Centro de Saúde. Vai transferido para Divinópolis ocupando
o mesmo cargo. Retornando a Belo Horizonte trabalha no Instituto
Ezequiel Dias como laboratorista e dedicando-se a pesquisas científicas.
Tem vários trabalhos publicados – Mal de Chagas, Malária,
Parasitologia, Transfusão de Sangue, Fator RH - em revistas especializadas.
Em Belo Horizonte ele conhece Maria Zenólia Correa Rebelo
com quem se casa em 1931. Tiveram cinco filhos: Ivana, Virgínia,
Flávio, Cláudia e Bruno.
Devido a suas pesquisas segue para o Rio de Janeiro com a finalidade
de fazer estágio no Instituto Oswaldo Cruz. No seu retorno a Belo Horizonte, com outros colegas, funda o Laboratório Pasteur de
pesquisas clínicas. Participa da fundação da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da Universidade Federal de Minas Gerais onde leciona
Biologia Geral e Biologia dos invertebrados. Grande apreciador
de literatura passa também a escrever assim que se aposenta e publica
alguns livros. “Barca de Aposentado”, “Jornal de Serra Verde” (rememorando
os tempos passados em São João Evangelista), e “Simplício”
onde fala de vivências no Instituto Ezequiel Dias. Por sua produção
literária é eleito para a Academia Mineira de Letras. Dr. Waldemar,
poeta bissexto, tem alguns de seus poemas publicados após seu falecimento
em 1980, graças ao empenho dos filhos. É Ivana quem informa
sobre seus versos, alguns cheios de lirismo, outros humorísticos.
Tal senso de humor é dirigido principalmente a seus alunos,
brincando com alguns estudantes “invertebrados”. O livro recebe o
nome de “Canto da lembrança Perene”, titulo que tomo “emprestado”
para esse elogio, pelas lembranças que vieram à tona ao escrever
sobre meu admirável patrono: Dr. Waldemar Versiani dos Anjos.
ANTÔNIO AUGUSTO B. MOURA, NOTÁVEL ARQUITETO
Wanderlino Arruda
Cadeira N. 33
Patrono: Enéas Mineiro de Souza
É a arte um objeto de criatividade, um sentimento lúdico ou brinquedo do espírito ao mesmo tempo bonito e agradável? Seria a arte um dispêndio gratuito da energia dos sonhos ou da vontade de alguém estar na fotografia da história? Está a arte efetivamente disponível para melhorar a qualidade de vida de quem a produz e/ou de quem se beneficia dela? Segundo Paul Valery, a arte é aproveitamento de coisas que transbordam, algo que ultrapassa as linhas do senso comum, alguma coisa bem a mais no ser e no estar da vida.
É com todas estas considerações que me lembro do nobre entusiasmo do meu amigo doutor Antônio Augusto Barbosa Moura, companheiro de Rotary, conselheiro em questões de estética e arquiteto-administrador da construção da casa onde até hoje moro com minha família no Bairro Todos os Santos. Impossível recordar os tempos de Moura sem refletir em minha visão a capacidade incrível que ele tinha em delinear, quase em insights, formas da mais moderna arquitetura, válidas para a década de sessenta ou para qualquer outro tempo. Impossível, porque Moura foi sempre para mim o gênio da criatividade
inteligente e prática, útil e bonita ao mesmo tempo.
Há algum tempo, quando seu filho Antônio Augusto Pereira
Moura, também arquiteto dos bons, registrou em livro vivências da
arquitetura do pai, vi-me de pé e alerta para também marcar testemunho
do quanto o doutor Antônio Moura foi importante para o
urbanismo de Montes Claros, considerados sonhos e trabalho, profissionalismo
e cidadania. Foi dele a moderna e rica linguagem arquitetônica,
tudo em pacífica revolução de conceitos, com mira direta no
conforto do sentir-se e do viver bem, inovando as construções com
novos materiais, principalmente com a utilização de revestimentos
cerâmicos, pedras naturais e panos de vidro. Suas pérgulas, seu paisagismo
sempre inovador, trouxeram-nos mudanças nas formas e nos
coloridos, jardins externos e internos com dracenas, bromélias, ixoras,
agaves, bambus.
Concluídos os cursos de Arquitetura e Urbanismo na UFMG e
de especialização de Urbanística Técnica na Itália, Moura volta para a
nossa Montes Claros e o seu escritório na Rua São Francisco passa a
ser um ponto de referência para tudo que era projeto de modernidade
na arquitetura e nas ideias de desenho. Simples, alegre, participativo,
consciente dos seus deveres de ofício, gentil em todo o tempo, era um
real amigo de todos que o procuravam para uma opinião profissional
ou para um dedo de prosa, gosto maior de todo mineiro amante da
vida. Tanto era um grande e importante profissional, que até hoje,
quase quarenta anos passados, permanece vivo em nossa lembrança
como quem mais marcou o progresso da arquitetura em Montes Claros
e em muitas cidades do Norte de Minas.
Parabéns ao autor, Antônio Augusto, filho, e aos colaboradores
dra. Viviane Marques Silva Dias e fotógrafa Maria Lucília Veloso Teixeira
pelo registro de tão gratas memórias que temos do inesquecível
do arquiteto Antônio Augusto Barbosa Moura, que nos deixou tão
cedo na viagem da vida e do tempo.
NOTURNO PARA O SERTÃO
Wanderlino Arruda
Cadeira N. 33
Patrono: Enéas Mineiro de Souza
O artista, mesmo sendo uma pessoa mais ou menos como as outras, é um instrumento de Deus na obra da criação. Sempre pensando, sempre sonhando, sempre fazendo, é o arquiteto e o escultor de realidades e belezas. Vive cores e desenhos, movimenta ondas em eternas perspectivas. O artista é o que faz mais que as outras pessoas são capazes de fazer, vislumbra, vê, enxerga muito mais tanto na razão como na emoção. O artista mais do que o alimentar, é o próprio alimento, a sustança da vida e do viver. Dorme e acorda na intensidade do ser e do não-ser. E que bom!
Assim, fiquei e fico encantado sempre com o dom do meu colega, confrade, irmão, companheiro e amigo Itamaury Teles, jovem e vivaz sempre, que respira com intensidade supremos valores que só usos e costumes muito humanos conseguem oferecer. Jornalista ontem – e põe ontem nisso, porque da década de setenta dos velhos tempos d’O Jornal de Montes Claros e do “Diário” – continua repórter hoje, faminto observador de gentes, de bichos e de coisas, daquele jeito bom que Deus organizou e deixa que as pessoas desorganizem. Passa o tempo, repete o tempo, vem o dia e vem a noite, e tudo traz mais
brilho à inteligência e ao poder de observação de Itamaury. Excelente!
Estou dizendo tudo isso, para dizer do quanto gostei de NOTURNO
PARA O SERTÃO, o segundo livro de crônicas de Itamaury
Teles, uma descrição do menino-rapaz de Porteirinha, do estudante
caxias de Montes Claros, interiorano do norte e moço de capital. Li
e reli – acreditando estar lendo com os mesmos ângulos de visão do
autor, já que somos crias de uma mesmíssima situação tanto nas cidades
de nascimento como na vida estudantil e jornalística desta terra
de Darcy Ribeiro e de Waldyr Senna. Redação de jornal como quase
família, escola com jeito de vida, pouco, pouquíssimo dinheiro como
incentivo aos estudos, era tudo o que Deus quisesse!
NOTURNO PARA O SERTÃO é fotografia e pintura do que
há de mais legítimo na luminosidade do mineirês que falamos e que
nos serve como microscópio e telescópio para observação de tudo
que acontece conosco e em torno de nós. Cada página é ao mesmo
tempo palco e auditório, texto e pretexto, luz e sombra do que se
apresenta bem temperado na gostosura do viver e do amar a vida. Em
NORTURNO PARA O SERTÃO, tristezas são passageiras de última
viagem e alegrias são elixir para novas aventuras. Nunca o dinheiro se
revestiu de importância alguma, aliás muito ao contrário. Valor real é
o da inteligência inocente, da esperteza dosada, da simplicidade como
norma. Eterna malícia, malícia doce e jovial, em que o prejuízo não
prejudica e o lucro não ensoberbece. Tudo na medida certa, com o
adocicado de um dedo de prosa!
Matinês no Cine Fátima, iniciação de jovens do Banco do Brasil
em Brejo das Almas, sábias palavras de Zé Amorim, manhãs de
sábados no Café Galo, trens do sertão, ensinamentos de Gabrich,
confrarias do Skema, cheiro das velhas linotipos da Doutor Santos
e da General Carneiro, urubu voando de gravata, tudo, tudo uma
laboriosa e inesquecível musicalidade que só o amor à terra pode edificar
e colorir. Itamaury é realmente um magnífico cronista e escreve porque sabe escrever e gosta de escrever. Suas linhas têm o fôlego certo
que precisam ter, nem mais, nem menos, aquela cronometragem justa
dos atletas que passam de mão em mão a tocha das Olimpíadas. Se a
crônica é pequena por ser crônica, o livro é um edifício portentoso do
que somos e queremos ser.
Quem é de Minas, precisa ler este livro como quem saboreia
um requeijãozinho fresco esquentado com café de rapadura, ou uma
marmelada de São João do Paraíso, minha terra, com um doce de leite
cremoso das fazendas de Porteirinha. Quem não teve toda a felicidade
de nascer em Minas, veja como é bom aprender essa língua treiteira de
Itamaury e conviver com ele na mais linda das sabedorias.
O garoto vai longe!
HOMENAGEM PÓSTUMA
Marco Aurélio Baggio
Nossa mais sincera homenagem ao saudoso Doutor Marco Aurélio Baggio, médico psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta, notável historiador, autor de dezenove livros, falecido aos 71 anos, em Belo Horizonte.
Autor de dezenove livros, Marco Aurélio Baggio, membro da Academia Mineira de Medicina, Academia de Letras do Brasil, Academia Brasileira de Médicos Escritores, Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, foi um importante presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, do qual foi também presidente emérito. Grande incentivador da criação do nosso Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, prestigiou-nos na cerimônia de posse da primeira diretoria em 2007.
Ao longo de quase cinquenta anos de carreira, Marco Aurélio Baggio foi agraciado com 35 insígnias e medalhas de mérito cívico. Por oito anos, apresentou programas sobre assuntos de sua especialidade na televisão.
Wanderlino Arruda
A MEMÓRIA DE BAGGIO
Manoel Hygino dos Santos
Sócio Correspondente
Belo Horizonte - Minas Gerais
Domingo, primeiro dia de junho. Falece em Belo Horizonte Marco Aurélio Baggio, 71 anos, médico psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta. Foi agraciado, em quase 50 anos de carreira, com 35 insígnias e medalhas por mérito cívico; publicou 19 livros e integrou a Academia de Letras do Brasil. Era titular da cadeira 96 da Academia Mineira de Medicina e da de número dez do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, do qual era presidente emérito. Ocupou a cadeira 27 da Academia Brasileira de Médicos Escritores, Abrames, e presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional MG.
O velório foi a partir da manhã do dia seguinte na Funeral House, na avenida Afonso Pena, e o enterro na terça-feira. O local é antiga residência de Antônio Pimenta, médico de Montes Claros, da Santa Casa e um dos fundadores do Sanatório Santa Terezinha. Casado com uma Alcântara, de Grão Mogol, não deixou filhos, elegeu-se deputado estadual, foi diretor do Departamento de Administração do Estado, transformado em Secretaria de Administração.
Membro da Arcádia Mineira, de que foi entusiasmado presidente,
Baggio deixou ali amigos e admiradores. No dizer
de Juçara Valverde, presidente da Abrames, “deixa semeadas
angústias, dúvidas, reflexões, que sua inteligência registrou
em seus muitos livros. Conosco cria moradia e saudade”.
Marco Aurélio não conseguiu realizar um de seus projetos: eleger-se à Academia Mineira de Letras, embora não lhe faltassem
condições para ocupar uma cadeira. Frequentava a Casa de Alphonsus,
Vivaldi e Murilo, fez ali conferências, inclusive sobre
Guimarães Rosa. Um de seus últimos livros foi “Jesus de Nazaré:
Esplendor no Ocidente”, que merece leitura atenta e meditação.
O autor afirma que “Jesus de Nazaré propôs uma forma inovadora de
viver as relações humanas, baseada na fraternidade e fundamentada
na prevalência do espírito. Profetizava a chegada de um novo tempo,
em que as relações de poder que criavam a hierarquia de classes – uma
oprimindo as outras – seriam substituídas pelo enlevo da espiritualidade,
e anunciava o próximo evento – a vinda do reino de Deus”.
Propôs a salvação dos pobres, a exaltação dos humilhados, a cura dos
doentes, a distribuição da justiça, o respeito à liberdade de consciência
e a utopia da vigência da solidariedade universal entre os homens.
Caminhando para o final de seu livro, Baggio enfatiza a enorme
e excelsa contribuição de Jesus de Nazaré para a confecção
de uma sociedade, tão significativa quanto avançada, a
que chamamos, genérica e adequadamente, do Ocidente.“Mais que todos, pairando acima dos principais expoentes, a pessoa e
o ensinamento – a Boa Nova – de Jesus de Nazaré refulgem, esplendorosos,
como um farol que norteia as intenções e funciona como oímã que colige e retempera as realizações do Ocidente, rumo a seu vira-ser o seu porvir. Esse homem maiúsculo, vivendo em seu tempo,
até hoje bastante insolvido: a pobreza e a exclusão das pessoas. Somos
todos devedores dele, de Jesus de Nazaré, pela graça de nos manter
nessa senda que ele, poeticamente, denominou “reino de Deus” – vale
dizer – reino do espírito humano”.
O PRAZER É FEITO DE
PEQUENINAS COISAS
Zélia Patrocínio Oliveira Seixas
Era um domingo ensolarado de novembro de 2011. Encontrávamo-nos em Manaus, em visita à filha e aos netinhos que ali passaram a residir. Na procura do que fazer na cidade ainda desconhecida, veio a ideia de um passeio no Jardim Zoológico. Nada mais convidativo do que o contato com a natureza da selva amazônica, podendo-se conhecer novas espécies de animais e de aves em pleno cenário de floresta.
A sugestão teve pronta acolhida por parte dos adultos, porém o netinho de sete anos de imediato protestou: “Não gosto deste tipo de programa, por isso prefiro ficar em casa.” Mas, isso não seria possível!! Não havia com quem ficar e todos apostaram na tese de que ele iria se descontrair quando visse as atrações do Zoo.
Sob protesto, o passeio aconteceu e foi tudo muito bonito e surpreendente. Os animais selvagens a rosnar para os estranhos; os macaquinhos saltitantes em busca do que comer e receptivos às brincadeiras; as aves exóticas a grasnar e mostrar a exuberância das suas asas coloridas; os passarinhos, ao alto, também a se exibirem no livre
voar. Tudo isso, integrado ao painel verde das árvores centenárias.
E o netinho? Ah, este continuava de cara amarrada e, se consultado
quanto à sua satisfação, respondia contrariado: “Odeio quando
vocês me obrigam a fazer o que eu não quero”.
Final de passeio, fome a ameaçar. Procurou-se, então um restaurante
que dispusesse de espaço e estrutura de lazer para as crianças.
O que encontramos oferecia um “Clube da Criança”, onde o netinho
emburrado soltou o sorriso enfim, feliz com os videogames. Ali reencontrou
o seu mundo e a partir de então a dificuldade passou a ser o
querer sair.
Aquela situação tocou-me o coração e levou-me a questionar a
real essência dos prazeres da infância no mundo atual. O brincar, no
seu sentido pueril e ingênuo, também parece ter cedido seu espaço
à virtualidade. Hoje só se fala no virtual! E, lamentavelmente, a virtualidade
já vem reprimindo as nossas crianças nos seus impulsos do
querer se soltar, brincar, correr, saltitar, fazer amigos e sorrir. Elas estão
se tornando crianças robotizadas, entre quatro paredes, prisioneiras
de seus equipamentos de lazer que são os celulares, os computadores,
os tabletes, o smartphone, a internet, os jogos de vídeo, o Nitendo
64, o X-Box, os playstations e outros mais que fogem ao meu conhecimento.É por isso que pouco querem conversar e tanto resistem às
situações novas. Passam o tempo todo conectadas e sob o domínio e
linguagem de equipamentos eletrônicos. Com eles tornam-se super-homens, pois o importante é competir, vencer, mostrar que é mais
capaz...
Mas, e as emoções próprias do ser criança? Também tornaramse
virtuais? Como será isso?
Nessa hora, me veio a nostalgia do que foi ser criança lá nos
anos “enta”, em Montes Claros. Lá, a essencialidade da infância era
brincar. E, como a escolarização só começava aos sete anos, a liberação era geral e o lema das crianças era brincar, brincar e só brincar. Havia
compromissos também – as chamadas “obrigações” –, mas era um
trabalhar brincando. A tecnologia ainda se mostrava remota: meios
de comunicações acessíveis, só o rádio e o telefone – leia-se, telefone
fixo. Os recursos também eram limitados: presentes, só no Natal. Por
conseguinte, cabia às próprias crianças criarem os seus brinquedos,
adaptarem os seus ambientes, procurarem suas companhias. Era na
criatividade que os meios tornavam-se múltiplos e as formas variadas.
E o relevante era que pequenas coisas geravam satisfação e a ingenuidade
prevalecia...
Seria possível traduzir o mundo infantil dos anos “enta”? No
que alcança a memória, alguma coisa dá pra resgatar...
A socialização começava por um processo natural logo na primeira
infância. É que já se nascia no coletivo das famílias sempre numerosas,
sem falar nos parentes agregados, o que favorecia o contato
humano. O colo de mãe era temporário, o que impedia a super proteção
e a relação de dependência. Os mais velhos assumiam o cuidar
dos mais novos, o que inibia o ciúme e estimulava a cooperação. O
brincar era o movimento, as cores, o barulho, o olhar.
O crescer, mesmo ainda na imaturidade cognitiva, levava os
interesses e os instintos a se manifestarem. A necessidade de maior
contato e a ânsia de novas descobertas induziam as crianças a procurarem
algo mais a fazer e com quem fazer, onde quer que fosse.
Conforme idade e afinidades, os grupos de amigos iam naturalmente
se formando. Não faltava companhia, pois, além do núcleo familiar,
tinha também a vizinhança da rua que era a extensão da família. No
coletivo, as brincadeiras, a imaginação e a criatividade tornavam-se
mais elaboradas. Os meninos, mais aptos na capacidade física e motora,
logo se ligavam ao correr, à bola, aos animais. As meninas, já
revelando o instinto maternal, procuravam o “brincar de casinha”.
E os brinquedos eram de fabricação própria: bonecas de pano, panelas
de barro, carrinhos de madeira entalhada, sabugos de milho feitoboizinhos de carro, bolinhas de gude, pião de madeira e outros que a
imaginação alcançasse.
As cantigas de ninar logo evoluíam para as cantigas de roda,
saindo do fundo do quintal para as ruas tranquilas ao anoitecer. Era
no querer dançar e cantar que se formavam os grupos de roda a cantarolar
as eternas canções daquela fase infantil: “Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar...”; “O cravo brigou com a rosa...”; “Fui noTororó
beber água, não achei...”;“Apareceu a Margarida, olê, olê, olá...”; “Atirei
o pauno gato-tô...”. A coreografia do ir e vir, do destacar-se ao centro
com sapateado próprio e do puxar o cordão formando alas seguia o
ritmo e a inspiração de cada momento. A animação fluía por si só e
contagiava a todos sem precisar de animador. Difícil quem não retorne
a sua infância ao ouvir essas canções, pois elas a todos marcaram e
se tornaram eternas.
Os jogos e as brincadeiras de rua também se afirmavam no coletivo,
evoluindo as suas complexidades a depender do desenvolvimento
físico e motor e da capacidade mental da criança. Os menores
se estabeleciam em brincadeiras mais simples como pular corda, esconde-esconde, pega-pega, batata quente, cabra cega, boca de forno,
quente ou frio. Os maiores já procuravam a competição mais logística
dos jogos e do esforço físico da queimada, da porta-bandeira, da amarelinha,
das corridas de saco e outras tantas. Todos os divertimentos
tinham regras a serem cumpridas e, em geral, havia o vencedor e o
perdedor, bem como líderes e comandados. E todos tinham que se
ajustar a essas condições sem apelo ou proteção. Essa era a forma espontânea
de se autodisciplinar,de respeitar o limite do outro e de criar
as próprias defesas.
O esforço físico das brincadeiras e dos jogos requeria intervalos
para relaxar. Pedagogicamente falando, era o momento de “volta à
calma”. A galera procurava as calçadas ou o alpendre (hoje varanda)
de alguma das casas da rua para espairecer, o que acabava virando um
exercício grupal da fala. Era o momento de contar histórias e estórias ouvidas das mães e dos professores, e de passar adiante os “causos” de
assombração captados das conversas dos adultos. Ainda sobrava tempo
para testar as adivinhações e para as piadas de salão, estas saídas da
boca dos mais espirituosos.
A leitura também era fonte de diversão. Até então, os livros
não eram lidos por obrigação, mas pelo prazer da leitura. No circuito
havia mães-professoras e o acesso aos livros era estimulado. O ler possibilitavaà criança viajar na imaginação e penetrar noutros mundos.
A preferência era pelos contos imortais do mundo mágico dos irmãos
Grimm,Perrault, Andersen, chegando à criação do nosso compatriota
também eterno, o Monteiro Lobato. Os personagens e os cenários da
Gata Borralheira, Branca de Neve,Bela Adormecida, João e Maria,
Chapeuzinho Vermelho, Pequeno Polegar, Gato de Botas, Pinóquio,
Sítio do Pica-Pau Amarelo, entre outros, levavam as crianças
ao devaneio, à fantasia e à emoção. As narrativas também geravam
aflições, pois sempre havia os vilões personificados nos gigantes, nas
bruxas, nas madrastas, nos lobos maus, a fazerem o mal. Porém, com
poder maior, havia as fadas e os heróis que apareciam a tempo, nem
que fosse no último segundo, para salvar as vítimas encurraladas e
indefesas Se o imaginário levava a sonhos irreais e impossíveis, pouco
importava! Importante era que o vilão sempre terminava derrotado,
o bem vencia o mal e todos eram felizes para sempre. Difícil é se desprender
totalmente de um conto de fadas enquanto existir alegria e
esperança!
O domingo era o dia mais esperado! É que a liberdade era ainda
maior e os entretenimentos expandiam para além da casa e dos amigos
da rua. Até a comida era especial. A galinha caipira apresentava-se
como o prato principal do dia, complementada pela macarronada e
pelo tutu de feijão, com direito à sobremesa.
O dia começava com a missa das crianças, logo no início da
manhã, na Igreja Matriz. Era uma obrigação cristã que todos levavam
a sério. Sem necessidade da companhia de adultos, as crianças tornavam-se público exclusivo daquela missa, portanto, os rituais
eram a elas adequados e as mensagens a elas dirigidas. A maioria fazia
parte da “Cruzada Infantil”- movimento organizado pela igreja para
estimular a participação da criança na comunidade cristã e também
catequizá-la. A interação dentro do grupo e o preparo permanente
do catecismo estimulavam a sensibilidade e o comprometimento das
crianças, tornando-as mais receptivas aos ensinamentos religiosos e
mais dispostas a partilhar. As missas eram sempre participativas e entoadas
por cânticos. No último domingo do mês, ou em datas comemorativas,
os “cruzadinhas” compareciam com seus uniformes brancos
e faixas amarelas com o símbolo da cruz, o que emprestava ar de
solenidade à cerimônia. Quem coordenava tudo era o Padre Dudu -
eterno pároco da igreja. Com seu perfil enérgico, às vezes exagerava ao
difundir para as crianças a imagem de um Deus vigilante e punitivo
com o não cumprimento dos seus mandamentos. Mas, nunca deixava
faltar a imagem do Deus amigo e protetor das crianças e o sentido do
amor cristão. E foi aquela sementinha que despertou a espiritualidade
de todos a crer num Ser Superior “que sempre nos rege, nos guarda e
nos ilumina”.
Emoção também do domingo eram as matinês logo no início
da tarde. Como ninguém tinha mesada, os pais selecionavam previamente
os que iriam, com base no melhor comportamento. Algumas
crianças se ofereciam como baleiro circulante – uma boa forma de
ter acesso aos filmes. As sessões de cinema sempre começavam pelo
seriado Zorro, em que rápido se formava uma torcida geral pela vitória
do vingador mascarado. Os filmes principais variavam de gênero
a cada semana, ora passando filmes de ação, ora faroestes americanos
estilo Matar ou morrer, ou algum de espionagem com o agente secreto
James Bond, como Moscou Contra 007 -, ora épicos históricos, estilo
Quo Vadis ou Os dez mandamentos, até chegar aos filmes cômicos de
Zé Trindade e Grande Otelo. Aventura, de fato, era dar A volta ao
mundo em 80 dias. E, quem não tivesse medo de assombração, podia
até encarar o suspense do Alfred Hitchcock.
Também, em conformidade com a censura, podia-se alcançar os
filmes românticos da época, à moda do Candelabro Italiano – cantem
Al di Lá, de Quando setembro vier e de E o vento levou. A sensualidade
era pouca explorada, beijos só de “bico selado” e o amor mostrava-se
puro...Até então, o cinema já tinha evoluído do mudo para o falado e
legendado, do preto e branco para o “technicolor” e o “cinemascope”.
Os recursos dos estúdios de “Hollywood” ainda eram limitados, mas
grandes galãs já se tornavam ídolos.
Os passeios do domingo à tarde eram as visitas aos familiares e
amigos – avós, tios, primos, comadres. A distância, a poeira e o calor
até chegar ao destino não se mostravam como obstáculos ao lazer. No
colo da mãe. Ia o filho mais novo, outros agarrados à barra da sua saia,
os demais segurando-se as mãos. O cansaço se desfazia com a alegria
do encontro com os visitados. Crianças e adultos se dividiam em seus
grupos próprios, uma vez que todos tinham com quem se ajuntar,
conversar e se divertir. E o lanche nunca podia faltar, sempre regado
ao farto café mineiro com queijo, biscoitos de polvilho, bolo de fubá,
além dos doces caseiros feitos no tacho de cobre.
Daqueles inesquecíveis passeios, vêm à mente inúmeros cenários:
- Os vastos quintais das casas feitos pomares com árvores frutíferas
das mais variadas espécies; às vezes tinha até um fio d’água
correndo lá no fundo. Neles, o brincar não era só subir e balançar
nos galhos das árvores, mas, competir quem alcançava o topo mais
alto, quem não escorregava nos troncos roliços dos mamoeiros, quem
pulava de galho em galho imitando os macacos. Depois do pula-pula
era o sentar-se debaixo das árvores e deliciar-se com as mangas maduras
caídas do pé e com as jabuticabas pretas retiradas do tronco das
jabuticabeiras. Era uma comilança só, sem se lembrar da obstrução
certeira das vias intestinais no dia seguinte, por conta de tanta semente
engolida;
- A subida à ladeira para chegar lá no Alto dos Morrinhos, donde
se avistava toda a cidade. Quem por ali passasse não podia deixar
de entrar na colonial Capela do Nosso Senhor do Bomfim, subir à sua
torre para badalar o sino e, por obrigação, rezar uma Ave Maria para
ser abençoado;
- O corre-corre para ver o trem passar, quando a maria-fumaça
ecoava de longe um apito uivante. E lá vinha ela, com toda sua imponência,
a soltar fumaça, abrindo passagem. E todos a acenar aos
passageiros, desejando-lhes boa viagem;
- A corrida atrás do carro de boi– aquele de eixo com duas rodas
de madeira puxado pela junta de bois amordaçados e atiçados pelo
ferrão do malvado carreiro. Para a garotada, o insistente nhem-nhemnhem
produzido pelo movimento das rodas era o gemido lamentoso
dos bois que, cabisbaixos, mostravam-se sofridos e humilhados. Os
gritos da galera se confundiam no incitar os bois e no repudiar a maldade
do seu condutor.
Mas, aventura no seu sentido nato de proeza e de risco ocorria
de fato nos saudosos piqueniques, sempre à beira de um rio. O São
Francisco mostrava-se distante, apesar de Montes Claros estar no seu
Vale, mas havia os seus afluentes – ou subafluentes – mais acessíveis.
O rio Carrapato era o preferido! Era também aos domingos que a gurizada
se aboletava na caçamba de seu Zé e da dona Antônia, desprendidos
organizadores dos passeios, para curtir as paisagens da mata. A
viagem, não obstante os sacolejos nas estradas de terra esburacadas,
era só alegria e algazarra! Quando o rio era avistado, ninguém mais se
segurava. Os mais afoitos se jogavam logo às suas águas transparentes
e começavam a fazer dos galhos das árvores trampolins para saltar nos
poços mais fundos. O dia era de integral e exclusivo contato com a
natureza e com direito a toda espécie de traquinagens, como armar
alçapões para pegar sabiás (a ordem era depois soltá-los), pescar piabas,
catar conchas de caramujo,correr atrás das lagartixas, catar flores
e sementes.
Incrível como tudo era encanto! Os adultos se inquietavam,
preocupados com a segurança das crianças, mas estas pareciam ter o
seu anjo da guarda próprio. Prova: apesar dos escorregões, quedas e
arranhões, ninguém fraturava nada. E, ao fim do dia, todos voltavam
para casa sã e salvos!
Havia também passeios a fazendas. Dos vizinhos fazendeiros, os
mais receptivos eram o seu Luiz Maia e a dona Ceci, que ao irem com
a família à fazenda Cabaceiras, de sua propriedade,davam oportunidade
aos amigos dos seus filhos. Era um privilégio participar daquela
caravana! O destino, por ser mais distante, tinha como meio de transporte
o trem. E qual mineiro não gosta de viajar de trem?! Por isso,
as emoções já se manifestavam no embarque na estação ferroviária.
Anunciada a saída, todos se sentiam partindo para uma viagem internacional.
O trem nada tinha de corredor e ainda por cima fazia muitas
paradas. Mas, pensando bem, era melhor que fosse assim, já que
o que se queria mesmo era ampliar a viagem e conhecer os vilarejos
e as paisagens ao longo do caminho. A estadia de três a cinco dias na
fazenda levava todos a situações novas: o convívio com os bois no curral,
o andar a cavalo, o catar os ovos de galinha escondidos;as trilhas
a percorrer. À noite, o curtir era apreciar a lua e as estrelas, tentando
definir a fase da lua e as figuras formadas pelo aglomerado de estrelas
lá no céu. Como as constelações ainda não eram conhecidas, cada um
interpretava o desenho das estrelas conforme sua imaginação.
O tempo ia passando, as crianças crescendo e uma metamorfose
se anunciando. Algo começava a mexer no corpo e no emocional
daquela moçada, era a puberdade que vinha chegando. Mas, lá nos
anos “enta,” essa mutação se processava mais lentamente, o que tornava
a infância mais prolongada. Por isso, o querer brincar persistia.
Ainda havia tempo para os meninos ampliarem seus espaços, soltarem
suas pipas, jogar em peladas de futebol em campos improvisados e
fazerem suas pescarias de forma mais aventureira. As meninas, mais
recolhidas e fantasiosas, davam vazão à imaginação na arte da música e da representação. E, no fluir da liberdade de criação,o teatro
também ganhava a sua vez, atraindo como público até os adultos das
redondezas.
De fato, dentro dos seus limites e possibilidades, a meninada,
ainda inspirada pelas estórias do mundo mágico, conseguia dar vida
aos cenários e personagens dos contos de fada. A adaptação e a montagem
eram próprias: tablado improvisado com pneus e pedaços de
madeira; cenário formado por papel de embrulho pintado com aquarela;
cortinas improvisadas com lençóis e toalhas. Roupas e fantasias
podiam ser feitas de papel, mas as do fundo do baú também eram
reaproveitadas. Quanto ao efeito cênico e sonoro, esses dependiam
da capacidade de interpretação de cada um. Traduções mais comuns
eram as estórias do Chapeuzinho Vermelho, do João e Maria, da Gata
Borralheira. Mas também se interpretava as peças da Maria Clara Machado,
como o inesquecível Pluft, o fantasminha, A bruxinha que era
boa e o Rapto das cebolinhas. Com fantoches, dava-se interpretação
aos habitantes do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Era nas apresentações
e representações que todos revelavam a sua espontaneidade e o seu
interior.
Enfim, é de tamanha simplicidade a gerar tanta satisfação e tanta
alegria que se pode depreender que o prazer é feito de pequeninas
coisas.
E, voltando às crianças do Século 21, só me resta fazer um apelo:
Meu Deus, não deixe que os desejos infantis escapem das nossas crianças.
Desperte sempre nelas a sensação do brincar, do correr, do gritar e
do sorrir. Não permita que se tire delas o encanto pelo mundo, nem os
sonhos com a fantasia. Impeça a sociedade de lhes cobrar mais saberes do
que suas mentes alcançam. E, acima de tudo, não deixe que as máquinas
antecipem nelas a vida de adulto.
Convidado
FAFIL-UNIMONTES: 5O ANOS
DE INÍCIO DAS AULAS
Hermildo Rodrigues
Há 50 anos neste mês de março, a FAFIL dava inicio as aulas, com os cursos de GEOGRAFIA, HISTÓRIA, LETRAS e PEDAGOGIA, em salas cedidas pelo Colégio Imaculada Conceição, à avenida Cel. Prates, 276. Era o ano de 1964.
Graças ao idealismo de um grupo, o sonho tornara-se realidade. Inúmeras foram as reuniões empreendidas pela FELP - Fundação Educacional Luiz de Paula na casa de Manoel Nazareno Procópio de Moura, a rua Dom Pedro II; e de Luiz de Paula Ferreira e sua esposa Isabel Rebello de Paula, a rua Dr. Santos, com a presença ainda de M. Florinda Ramos Marques, M. Dalva Dias de Paulo, Sônia Prates G. Quadros, as irmãs Maria da Consolação Figueiredo (Mary), Maria Isabel M. Figueiredo (Baby), e Glacira G. Mendes. Excluindo Luiz de Paula, todos os citados foram os primeiros professores, juntamente com Maria de Lourdes S. Zuba, o marista Wagner M. Ribeiro, Dr. Romildo B. Mendes, Francisco G. Souto e Antônio Francisco Oliveira. Este último como secretário-adoc, redigiu a 1ª Ata de fundação da FAFIL.
Formandos de 1967 - Faculdade de Filosofia de Montes Claros
Isabel Rebello de Paula com competência, dedicação e firmeza,
foi a primeira diretora. No desempenho da função, dispensou o recebimento
de honorários, assim como Manoel Nazareno que a substituiu.
Raridade hoje em nossos dias. Lamentavelmente, e esquecido
por muitos, Manoel Nazareno, padece inconsciente, há quase 6 anos,
vitima de AVC, num leito da Santa Casa. Hamilton Souza Lopes, foi
o primeiro candidato inscrito ao vestibular.
No ano seguinte, 1965, transferimo-nos, para a antiga Escola
Normal localizada a Rua Cel. Celestino,75, fundos da Igreja Matriz.
Naquele ano, cujo os alunos haviam sido removidos para a atual E.
E. Prof. Plínio Ribeiro, à Av. Mestra Fininha, 1225. As dificuldades
foram muitas, mas superadas. A biblioteca foi improvisada na Secretaria
em livros doados por Isabel Rebello Paula e outros mestres. No
primeiro ano de funcionamento a FAFIL estava sob o amparo da
Fundação Luiz de Paula. No ano seguinte, 1965, com a criação da
FADIR - Faculdade de Direito que passaria a funcionar no primeiro
andar do casarão, ambas passaram a integrar a FUNM - Fundação Norte Mineira de Ensino Superior, criada pela Lei Estadual nº 2.615
de 24/05/1962 de autoria do ex-deputado Cícero Dumont, que foi
também o paraninfo representando o ex- governador Magalhães Pinto.
No inicio de 2012, a UNIMONTES comemorou festivamente
cinquenta anos a partir da criação da FUNM. Até hoje, o site da
UNIMONTES registra erradamente, o inicio das aulas em 1963, embora
há dois anos, portando documento, tenha solicitado a correção
desse erro histórico. Contudo, vale muito registrar, e comemorar para
os primeiros alunos, os cinquenta anos do inicio das aulas em março/
1964, assim com faz a torcida mineira que comemora o aniversário
do Estádio Mineirão, a contar de quando a bola começou a rolar
em setembro/1965, e não quando a Assembléia de Minas aprovou
projeto de sua construção em anos passados.
Conservo até hoje, o convite de formatura, e lá está gravado
também o nome das abnegadas e queridas secretárias: Adélia Miranda
e Teresinha Duarte. Na foto acima em Dezembro/1967, na noite da
diplomação das primeiras turmas, vemos parte de alunos de GEOGRAFIA:
da esquerda para a direita: Regina M. Peres, o autor destas
linhas, Carmélia C. Macedo (Beli), José Omar Peres, e Carlos R.
Monção. Alguns dessa turma, mais tarde se tornaram mestres da FAFIL
como Regina M. Peres, José Omar Peres, e Maria José Narciso;
de outras turmas: Wanderlino Arruda e Yvonne de Oliveira Silveira,
num longo período de 1967 a 1990.
Montes Claros à época estava em plena ebulição comercial, industrial,
social, cultural, e política. Esse período foi um dos mais ricos
da história da cidade. A FAFIL veio culminar essa época de ouro.
Havia ainda para alguns, o sonho de federalização: o montes-clarense
Darcy Ribeiro era o Ministro da Educação, sonho abortado pela derrubada
do governo Jango Goulart.
R. Shinyashil disse um dia: “Tudo o que um sonho precisa para
ser realizado é alguém que acredite que ele possa realizar”. Desta forma,
quero homenagear, dirigentes, mestres e demais servidores dos primórdios da FAFIL, em reconhecimento pelo tanto que realizaram.
Eles ousaram sonhar, e creram. Eles fizeram um caminho novo. Eles
fizeram história. Graças a esses pioneiros, a busca do sonho é hoje
uma realidade incontestável: a nossa querida UNIMONTES.